quinta-feira, 13 de março de 2008

Avaliações

O tema avaliações está indubitavelmente na moda. No entanto, parece-me que lhe dão um significado parcial e, a meu ver, menor.

A meu ver, avaliação é aquele acto através do qual analisamos a nossa actuação, ou a de outros, no sentido de determinarmos o que está bem, o que está menos bem e o que está errado, com vista a emendar o que esteja mal e menos bem para melhorar a actuação. Passada esta fase, a avaliação também pode servir para distribuir os avaliados numa tabela de mérito.

Este acto é tão importante para o desempenho profissional, que os cursos de enfermagem têm uma disciplina chamada "Prática Reflexiva", que trata de uma auto-avaliação contínua dos profissionais em todas as suas actuações.

Temos, portanto, que a auto-avaliação é um exercício próprio dos profissionais competentes.

Parece-me que o governo esqueceu o aspecto de valorização profissional da avaliação, para lhe dar só o aspecto de pontuar os avaliados para acções de promoção ou castigo. Trata-se de trocar um valor de ética profissional pela concorrência, sem dúvida mais actual. É como no futebol: não interessa se a equipa joga bem ou não; interessa é passar a eliminatória.

As televisões mostraram o porta-voz do P.S., dr. Vitalino Canas, perguntado se na reunião do partido tinham analisado o que tinha corrido mal nos 3 anos de governo, afirmar em jeito de quem nunca se engana e raramente tem dúvidas: - "Quando se fazem balanços é, certamente, para realçar aquilo que se fez bem. E, foram tantas as coisas que fizemos bem, que não temos de perder tempo com o que fizermos mal"!

Já tinhamos concluído que a auto-avaliação é um exercício próprio dos profissionais competentes.....

quinta-feira, 6 de março de 2008

Associações de ideias

A senhora Ministra da Educação acaba de afirmar, em entrevista à RTP 1, que os professores não têm grande razão de queixa no caso das avaliações, pois basta terem BOM para progredirem na carreira, ao contrário dos restantes funcionários que, se tiverem BOM, nunca mais progridem e, os que tenham classificação superior a BOM, só progridem se houver verba.
A afirmação foi da senhora ministra, não foi da Ana Avoila. Ela lá saberá os meandros destas coisas!

A propósito de avaliações, foi hoje noticiado que um funcionário (desculpem, agora diz-se "trabalhadores do emprego público" - Lei 12-A/2008, de 27 de Fevereiro) que tenha duas classificações negativas será sujeito a uma acção de formação e, se não tiver aproveitamento, será objecto de inquérito e processo disciplinar tendente ao despedimento.
Lembrou-me o que se passou em Moçambique logo após a independência: quem não alinhasse activamente com os novos governantes, ia para um campo de reabilitação (trabalhos forçados). Se após o tratamento continuasse a não alinhar, era fuzilado.
Afinal os trabalhadores do emprego público não se podem queixar muito. Ainda não se fala em fuzilamentos!

Também foi hoje noticiado que passa a constituir falta grave o facto de um trabalhador não denunciar erros de um colega, o que poderá levar à situação do parágrafo anterior.
Lá me veio à ideia aquela cena dos colaboracionistas durante a guerra 39-45. Até o pai denunciavam!
Foi aí que percebi porque é que os dirigentes dos hospitais que passaram a S.A./E.P.E. começaram a tratar os funcionários por "colaboradores". Já deviam saber desta proposta!

A nossa cabeça faz cada associação!!!!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Upgrades à portuguesa

Significando "upgrade" melhoramento ou subida de categoria, quero falar de alguns destes actos que testemunhei e de outros que faço votos não venha a testemunhar.

Na década de 1950 os comboios ainda tinham 3 classes - 1.ª, 2.ª e 3.ª - indicadas nas carruagens por 1, 2, 3 ou I, II, III (a chamada primeira entre parêntesis). A 1.ª classe tinha bastante conforto, com estofos macios e instalações sanitárias. A 2.ª tinha estofos mais duros, como os comboios urbanos actuais, e também instalações sanitárias, enquanto a 3.ª tinha bancos de madeira e, na maioria dos casos, não tinha instalações sanitárias.

Como apontamento sociológico, esta divisão dirigia-se às três grandes divisões da sociedade - classe alta, média e baixa - a ponto de, enquanto militares, os oficiais só poderem andar em 1.ª classe, os sargentos em 2.ª e as praças em 3.ª.

Nos anos 60, considerou-se que esta estrutura era digna de países primitivos e decidiu-se actualizar o país, acabando com a 3.ª classe. Claro que, com a nossa proverbial argúcia empresarial, não se atiraram as velhas carruagens para a sucata. Pintou-se um 2 ou apagou-se um I, onde estava um 3 ou um III, fazendo-se assim uma considerável melhoria (upgrade) na qualidade dos comboios e na vida dos portugueses.

Anos mais tarde, foi a febre da promoção de aldeias a vilas e de vilas a cidades. Em dezenas de casos, passou-se como nos comboios. Muitas dessas terras têm as mesmas condições - e cada vez menos - que anteriormente, mas somos um país tão desenvolvido, que quase não tem aldeias.

Agora, fala-se na "promoção" das pensões e motéis a hotéis. Claro que "pensão", é de país atrasado. E depois é de difícil tradução para os turistas. A designação é muito diferente da inglesa. Simplifica-se, e melhoram-se as condições (?) com o nome de "hotel".

O que temo é que se esteja a passar um processo semelhante com o ensino.

É que, o banco ser de madeira, a terra mudar de nome só porque se chamava Vila ou a chafarica chamar-se hotel, só é anedótico. Aldrabar no ensino é trágico para o futuro de todos nós.....

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O carnaval do Porto

Não achando graça nenhuma aos arremedos foleiros do carnaval brasileiro que vai sendo prática realizar em Portugal, vi anunciado um carnaval "à moda antiga" no Porto, e lá fui eu.

Comecei por almoçar na incortornável Travessa dos Congregados, onde tive a recordação duma tradição da casa dos meus pais, de que já não me lembrava: no carnaval come-se orelheira fumada com feijão branco. Claro que não resisti, nem às papas de sarrabulho (qualquer dia, lembram-se que ofendem as directivas da CE), rematando com um pudim francês bastante parecido com o que a minha mãe fazia.

Cumprida a primeira parte da tradição, lá fomos para a festa na Avenida. Uma peça de teatro, com actores e humor do Porto, talvez na linha da velha "Voz dos Ridículos". Um texto que o Gil Vicente não desdenharia de assinar! Actores com um desempenho que se via que era por gosto e não por "frete profissional". Gente bem disposta e que transmitia alegria à imensa plateia.

Demonstrou-se que um acto cultural não tem de ser chato nem elitista e que, para ser do agrado popular, não é necessário ser ordinário nem populista.

Parabéns aos autores, aos actores e aos organizadores!

Se para o ano houver mais, lá estarei...

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Jornalismo de investigação

Um jornal que se considerava sério e de referência publicou ontem uma notícia que o coloca ao nível dos mais notáveis pasquins tabloides a nível mundial: a história dos projectos do eng.º Sócrates, há 25 anos.

Devo dizer que tenho pelo eng.º Sócrates a mesma consideração que ele teve por mim, na qualidade de funcionário e reformado: enganado, desprezado e altamente prejudicado. Só que fico com dores no fígado em presença da nacional-mesquinhice-cusquice.

O escrevente pode atacar o homem como político e, certamente, terá muito por onde....

Já que pretendem fazer jornalismo de investigação, podem começar por investigar as denúncias do sr. bastonário da Ordem dos Advogados e mais umas dicas que lhes deixo aqui.

Há um político que se diz ter fanado uma galinha, quando vivia numa república em Coimbra. Outro, que também estudou em Coimbra, apanhou uma homérica bebedeira no cortejo da queima das fitas. Outro ainda, este de Porto, andou "de gunas" no eléctrico, quando andava no liceu. Diz-se ainda que o Presidente não pagou um café que tomou, há 40 anos, em Portimão.
Para finalizar, uma "caixa" que pode valer o prémio Pulitzer: consta que o Papa se masturbou quando tinha 13 anos...

Boas investigações e... tenham vergonha!

sábado, 26 de janeiro de 2008

A montante de Alijó

Antes de mais, quero esclarecer que a última vez que estive em Alijó, foi com o meu pai, há mais de 50 anos. Não tenho, portanto, qualquer interesse pessoal no que vou dizer.

Qualquer português que tenha ouvido as gravações, passadas na comunicação social, da conversa entre o call center do CODU do INEM e o telefonista dos bombeiros de Alijó, ficou estarrecido. Os habitantes das grandes cidades e desconhecedores do que se passa no restante país, certamente duvidaram estar-se a falar do Darfur ou dos confins do Afeganistão. Os que conhecem a triste realidade, só constataram que tudo continua como sempre...

A triste realidade é que, na maior parte do território nacional, a protecção civil e assistência pré-hospitalar estão entregues a voluntários, de inequívoca boa vontade, mas sem meios para resposta atempada e eficaz. Principalmente nos meses de verão pode ver-se a revoltante imagem dos bombeiros a fazerem barragem nas estradas aos carros, para pedirem uma "esmola" para comprar umas mangueiritas, pois as que têm estão podres, ou para substituir o UNIMOG oferecido pelo Estado, que já fez a guerra de África e foi oferecido aos bombeiros em vez de ser abatido. Andam aí muitos!

O Estado, que deveria cobrir as necessidades de protecção das populações, descansa nas boas vontades e altruísmo dos voluntários, que dão o físico, e não lhes dá os meios mínimos para actuarem. Uma vergonha!

Claro que os bombeiros de Alijó, como os outros voluntários, não têm possibilidades de manter uma equipa nocturna de resposta imediata. Os voluntários trabalham durante o dia e necessitam naturalmente da noite para descansar. Para ter uma equipa nocturna, teriam de lhes pagar, como é natural. Quem dá o dinheiro?

O voluntariado faz parte das nossas tradições e é um forte contributo para a coesão e sentido de identidade locais, mas deverá ser complementar de um sistema profissional de protecção das populações, obviamente pago pelo Estado. O sistema de Protecção Civil (chamem-lhe o que quiserem) deve ser uma força de segurança como qualquer outra e integrado em rede com todas as outras. Não estou a inventar nada. Em Macau, administração portuguesa, era assim.

Claro que a situação não é nova e escusam as carpideiras políticas do costume de vir chorar. Todos têm culpas!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Agradecimento

Foi hoje publicado o decreto-lei que estabelece os aumentos de vencimentos dos funcionários públicos no activo e das pensões dos reformados da C.G.A.

Vi que, como reformado, sou aumentado 1.65% enquanto os meus colegas do activo são aumentados 2.1%.

A princípio estranhei, mas, depois de pensar melhor, vi que o sr. primeiro-ministro me estava a dar uma oportunidade de fazer o BEM, contribuindo assim para o aumento dos meus créditos nas contas finais com o Criador.

Digo fazer o BEM, porque certamente a diferença entre o meu aumento de reforma e os fabulosos 2.1% dos meus colegas do activo, servirão para compensar a falta de contribuições daqueles pobres nomeados para as administrações de certas empresas públicas onde, por estatuto, entram logo a contar com 15 a 25 anos de descontos.
Também devo estar a contribuir para os vencimentos daqueles desgraçados que não sabem nem nunca fizeram a ponta dum corno, se filiaram num partido e são nomeados para altos cargos, onde exercem o que sempre fizeram.
Pode ainda dar-se o caso de estar a contribuir para a atribuição de um carrito de alta gama a algum nomeado que, devido ao baixíssimo vencimento, não pode andar no carro dele.

Por me ajudar a ter esta contribuição para a salvação da minha alma, muito obrigado sr. primeiro-ministro!