quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Licenciaturas de segunda?

Os enfermeiros estão em greve e quero daqui exprimir-lhes o meu apoio e dar uma ajudinha solidária, pois também eu fui considerado "licenciado de segunda" pelo Ministério da Saúde.

Há cerca de 10 anos que o curso de enfermagem é uma licenciatura, com todas as exigências de acesso e estudo de qualquer outra licenciatura (daquelas "a sério"!).

Acontece que, profissionalmente e em termos de remuneração na carreira, o Estado se recusa a considerá-los técnicos superiores (licenciados), considerando-os como técnicos (bacharéis).

Comigo passou-se o mesmo, pois tendo entrado como bacharel e tendo-me licenciado, ao fim do 23 anos ainda não me tinham considerado técnico superior.

Houve em 1999 uma legislação para reclassificação dos funcionários que tivessem habilitações superiores às correspondentes à categoria em que estavam, mas estava com uma redacção tal, que só os "amigos" passaram.

Actualmente, com o fim dos bacharelatos, os bacharéis das carreiras gerais da Função Pública passaram a técnicos superiores, o que não aconteceu com os enfermeiros licenciados.

Têm portanto estes profissionais toda a razão no seu protesto,

Será que a razão é a dúvida de um escriba de um jornal da Figueira da Foz, que há 10 anos protestava contra a licenciatura dos enfermeiros com esta inteligente justificação: "então depois a quem é que eu chamo doutor?"?

sábado, 23 de janeiro de 2010

Da qualidade das leis à discussão da avaliação

O Expresso de hoje noticia que leis mal feitas custam 7,5 mil milhões de euros ao país, cerca de metade do défice do sector Estado, havendo a opinião de um especialista de que esta avaliação está feita por baixo.

Claro que falta contabilizar os custos de funcionamento da Assembleia da República, cuja função é exactamente legislar.

A ser verdade o noticiado, parece demonstrar-se incompetência total de quem legisla e de quem promulga as leis.

Nesta conformidade, e no contexto das discussões sobre avaliações de funcionários públicos, surge-me a dúvida: afinal quem é que tem legitimidade moral para avaliar quem?

Mais se informa que as leis não são feitas pelos deputados (não foram eleitos para isso?), mas encomendadas, e principescamente pagas, a escritórios de advogados.

De tudo isto, e sempre no sentido de ajudar, surge-me uma ideia, que talvez concorresse para a diminuição do tal défice.

A Assembleia da República passaria a funcionar num T2, com um staff constituído pelo Presidente (fica sempre bem um presidente!) e uma equipa administrativa que soubesse fazer escorreitamente concursos para elaboração das leis. O palácio de S. Bento seria vendido ou arrendado para hotel de charme. Os deputados, incapazes de fazer aquilo para que foram eleitos, seriam dispensados e as votações seriam efectuadas por votação electrónica a partir das sedes dos partidos, cabendo a cada um o número de votos correspondente aos deputados eleitos (assim a modos que a assembleia-geral do Benfica).

Já viram o dinheirão que se poupava, obtendo-se os mesmos efeitos?

Por favor não culpem das asneiras os editores do Diário da República!

sábado, 26 de dezembro de 2009

Dia de Natal

Li no blogue "Outra Margem" e não resisto a transcrever, dada a actualidade e fino sentido da realidade:
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Dia de Natal
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Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.
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É dia de pensar nos outros - os coitadinhos - os que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.
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Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.
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De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
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Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.
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Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.
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Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.
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A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.
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Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.
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Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.
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Ah!!!!!!!!!!
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Na branca macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.
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Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
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Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
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Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
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Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de sonhos e venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
António Gedeão

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Presépio de Ílhavo

Nesta época é já tradição que as terras onde o Natal ainda tem uma conotação religiosa exibam no seu centro cívico um presépio, enquanto aquelas onde a conotação festiva já é mais comercial e consumista se preocupam em apresentar a árvore de Natal, o mais sumptuosa possível.

No centro de Ílhavo fui agradavelmente surpreendido com uma representação muito particular do Presépio. É de forma estilizada e totalmente construído com sucata.

Talvez seja o mais próximo da ideia franciscana original.

Ninguém conhecendo as verdadeiras feições de Maria, de José e do Menino, talvez a forma estilizada seja a que menos enviesa a mensagem.

Por outro lado, nada melhor para representar o nascimento de um Jesus que quis ser humilde entre os humildes que a sucata, ao contrário de outras representações sumptuosas e mais indicadas para o nascimento de qualquer imperador.

Estão de parabéns quem teve a ideia e quem a pôs em prática.

FELIZ NATAL para todos.

sábado, 21 de novembro de 2009

Os jovens do 1.º - A

No ano de 1956 entraram para o 1.º ano, turma A, do Liceu Alexandre Herculano, no Porto, 39 miúdos de 10 anos, entre os quais me incluo.

Seguiram os seus estudos e as mais diversas opções profissionais e nos mais diversos lugares do mundo. Passados muitos anos, um encontra outro, procuram-se antigos colegas e reúne-se toda a gente encontrável num almoço. Os almoços vão-se repetindo com frequências tendencialmente anuais e hoje foi o mais recente.

Recordam-se peripécias, professores, colegas e até já houve uma pequena recriação dos jogos da "laranjinha". Só faltou a corrida de "Dinky Toys" na visita ao velho liceu no ano do centenário! Essencialmente são momentos de boa disposição em que parece que todos recuámos 53 anos e voltámos à juventude.

Infelizmente, há 9 que não mais voltarão. Não morreram porque só morre quem é esquecido...

Um grande abraço para os que voltam e também para os outros.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O triste exemplo da France Telecom

Nos últimos dias fomos surpreendidos com a notícia de 24 suicídios de trabalhadores da France Telecom em somente 18 meses. Também ouvimos testemunhos de trabalhadores a descreverem as incríveis medidas de "restruturação" da empresa, incluindo da boca do próprio gestor (?) de recursos humanos. Os trabalhadores mudam periodicamente de funções e de local de trabalho (dezenas ou centenas de quilómetros de distância), com aviso na véspera. Quem não aceitar é despedido!

O tal gestor (?) classifica os trabalhadores de malandragem que o que quer é boa vida.

Tenho a impressão de que já ouvi esta ladainha em qualquer lado...!

Como houve bronca na comunicação social, o tal senhor foi afastado das funções de gestor dos recursos humanos, mas não foi afastado do conselho de administração, o que demonstra que só cumpria a política da empresa.

Também por cá há casos semelhantes de insuportavel pressão sobre os trabalhadores que, se não se suicidam, morrem de enfartes e exaustão nas próprias instalações das empresas, esquecem compromissos familiares, andam horas à procura do carro estacionado... Infelizmente não são tão poucos casos como possa parecer!

Ora há quem chame a isto boa gestão em resposta às exigências de competitividade, necessidades de relançamento da economia, bla, bla, etc., etc..., utilizando a instabilidade do emprego como forma de pressão sobre os trabalhadores. Os negreiros usavam o chicote, mas esses eram umas bestas...

Eu chamo-lhe grossa asneira e passo a demonstrar, em face do que aprendi há 40 anos no Instituto Industrial do Porto, antecessor do ISEP, e da minha experiência profissional.

Estudava-se nessa época a disciplina de Organização Industrial, tendo como livro-base a "Introdução ao Estudo do Trabalho", da OIT.

Ensinava essse livro que, para uma empresa funcionar bem e ter boa produtividade, os trabalhadores deviam exercer as suas funções nas melhores condições ambientais possíveis, boa iluminação, cores agradáveis, posto de trabalho o mais cómodo possível em termos ergonómicos, se possível música ambiente, etc.

Para minorar a pressão da vida familiar, nos tempos do governo do prof. Marcelo Caetano, as grandes empresas (do chamado grupo A) eram obrigadas a ter creche para os filhos dos trabalhadores, cantinas e outros serviços sociais (o Estado não tinha...). As grandes plantações de chá de Moçambique, chegavam a ter escola, capela e pequeno hospital.

Qualquer pessoa que alguma vez tenha trabalhado sabe que, se o trabalho é executado nessas condições, pode até tornar-se num prazer e, não havendo fadiga, aumenta-se facilmente a produtividade. Não me parece necessário um MBA para saber isto...

Parece-me que com as teorias agora tão em voga, dizem que derivadas da globalização (tem as costas largas!), estamos em franco retrocesso social, só faltando que os negreiros voltem a usar o chicote.

Há que reagir, pois a culpa tanto é de quem executa essas políticas como de quem deixa - todos nós!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Uma ajudinha ao sr. primeiro-ministro (3) - O TGV

Entre as grandes confusões geradas pelas declarações dos senhores membros do governo e demais políticos do PS está o projecto TGV.

Todas as explicações dadas são óptimas razões para não se construir tal projecto. Parece que andam afanosamente a praticar o seu desporto preferido - o tiro no pé!

Ora vejamos o que se argumenta:
1 - Se os espanhóis têm, também nós temos de ter! Ora aqui está um argumento parolo, provinciano, saloio, bimbo. Um verdadeiro atentado à inteligência!
2 - Leva os passageiros em menos meia hora de Lisboa ao Porto e menos umas duas horas de Lisboa a Madrid, sendo complemento ao novo aeroporto. Também não é explicação inteligente para justificar tal encargo.

Vejamos agora o que deveria ter sido feito.

Deveria ter sido explicado às pessoas (a grande maioria leiga em matéria de economia de transportes) que, para aumentar a competitividade das nossas exportações, devemos utilizar todos os meios de transporte de modo sinérgico e complementar, sendo que, em termos terrestres, o ferroviário é o mais económico e ecológico.

Por outro lado, a nossa rede ferroviária, com mais de 100 anos, está superlotada e sem ligação para além de Espanha (enquanto tiver compatibilidade com Espanha), por diferença das bitolas (largura entre carris) com as restantes redes europeias.

As contas de superlotação, por exemplo da linha do Norte, são muito simples de fazer: a diferença de tempo mínima de segurança entre dois comboios é de 2 minutos, o que leva a que não possam passar num troço de via mais de 30 comboios por hora, o que daria, sem paragens, 720 comboios por dia. Ora, com todas as paragens dos ronceiros urbanos e regionais, já lá passam 600 comboios por dia. Mais é muito difícil!

A dr.ª Ana Paula Vitorino tentou explicar isto, mas depressa se calou. Se calhar foi repreendida por estar a tirar os pés da linha de tiro...

Visto haver vantagens na utilização do transporte ferroviário e estar demonstrada a sobrelotação das vias existentes, é óbvia a necessidade de construir novas vias para a circulação das mercadorias.

A construirem-se novas vias, claro que serão com ligação às redes europeias e visão nos comboios de alta velocidade do futuro e não para os ronceiros a vapor do sec. XIX.

É esta a grande questão! Se passa lá ou não o comboio de passageiros que leva uns senhores de Lisboa a ir tomar café ao Porto em menos meia hora é supérfluo e irrelevante.