Acabo de ver no noticiário das 22 horas da RTP 2 uma reportagem sobre o lamentável desastre da queda de uma arriba no Algarve, onde se entrevistavam algumas pessoas espapaçadas debaixo de uma arriba, mesmo junto a um sinal triangular de perigo de queda de pedras, com o aviso "Perigo de queda de pedras" escrito em português, inglês e outra língua que agora não me recordo.
Perguntados sobre se não tinham consciência do perigo que corriam, um respondeu "Também era muito azar que fosse cair agora. Nós portugueses somos assim! Também nas estradas há sinais de perigo e nós passamos na mesma...". Outra afirmava "A responsabilidade não é minha. O governo é que deve impedir que nós aqui estejamos!"
Perante estas respostas, só se pode concluir que os portugueses não precisam de inimigos. São um povo suicida e que gosta de chicote nas costas para andar direitinho na manada.
Claro que não me admira ver amanhã as mesmas pessoas queixarem-se de excessos de zelo da polícia, dos radares-armadilha, das câmaras de vigilância e outros atropelos à liberdade individual. A verdade é que não merecem outra coisa.
Espero que não representem a maioria do nosso povo, mas uma minoria aberrante.
Eu não me sinto representado!
domingo, 23 de agosto de 2009
sábado, 1 de agosto de 2009
Uma ajudinha ao sr. primeiro-ministro (2) - Saúde
Como prometido, cá vai uma ajudinha para perceber o que correu mal relativamente à saúde.
Neste caso temos duas situações principais, não falando dos casos dos médicos e enfermeiros enquanto funcionários, já tratados no post anterior: as maternidades e as urgências.
Desde já devo dizer que concordo com o encerramento de serviços sem condições e sem casuística que justifique a sua existência. O problema foi o método...
No caso das maternidades, nomeou-se uma comissão científica, como é de bom tom, que produziu um estudo onde se propunham as maternidades a encerrar e a manter-se, responsabilizando-se estas pelo trabalho das encerradas.
Acontece que, não pondo em causa o valor científico dos senhores professores doutores membros da comissão, falta ao trabalho uma característica fundamental para ser científico - não é repetível!
No trabalho não se discriminam as condições de cada maternidade, uma a uma, para se concluir estar ou não dentro dos parâmetros exigidos. Foi-se simplesmente pela casuística e localização, que se confundiu com qualidade, omitindo todo o resto.
Chegou-se ao facto incrível e ridículo de o sr. ministro entregar ao Serviço de Obstetrícia de um hospital o Prémio Educação 2005/06 pelo projecto Preparação Parental para o Nascimento e, no dia seguinte, o mesmo sr. ministro encerrar o mesmo serviço por, com base no tal trabalho "científico", não ter qualidade.
Esse serviço, que tinha laboratório permanente 2 pisos abaixo, bloco operatório na porta em frente e equipas de anestesia e cirurgia permanentemente disponíveis, encerrou. Ficou aberta uma maternidade, na capital de distrito, sem laboratório e sem equipa cirúrgica permanente.
Se houvesse a frontalidade de dizer que, em face da casuística, a análise custo-benefício era desfavorável à manutenção do funcionamento, toda a gente perceberia.
Se um restaurante com cerca de 30 trabalhadores só servir uma refeição por dia, toda a gente percebe que é insustentável e terá de fechar.
Por outro lado, houve a pressa arrogante de impor os encerramentos, sem cuidar antecipadamente de dotar as maternidades que se mantinham com os meios de instalações, equipamentos e pessoal necessários para assistir os novos utentes. Vi situações em que enfermarias para 2 camas tinham 4, devido ao novo afluxo.
Quanto às Urgências, o processo foi semelhante.
Neste caso, a comissão produziu um trabalho bem justificado e repetível. Só falhou em não atender a que 60 km na A1 às 23H00, não é o mesmo que 60 km nas estradas da Pampilhosa da Serra à mesma hora, com neve ou nevoeiro.
As populações e a comunicação social confundiam SAP com Urgência. Para quem nunca viu uma Urgência a sério, é fácil estar convencido que um SAP lhe pode salvar a vida.
Não houve o cuidado de informar as pessoas de que os médicos e enfermeiros dos SAP faziam "milagres" todos os dias para atenderem decentemente os utentes, em condições deploráveis de instalações, sem equipamentos e sem qualquer tipo de apoio profissional. Vi alguns onde o equipamento era um esfigmomanómetro, um estetoscópio e um "diagnostic set".
Nestas condições, nem o NOBEL da medicina tinha meios de diagnosticar fosse o que fosse...
Como nestas coisas da saúde o sentimento de segurança é fundamental, faltou fazer as transformações de modo gradual e colocar os meios alternativos nos locais antes dos encerramentos, dando assim confiança aos utentes.
Numa corrida de estafetas, o atleta que recebe o testemunho acompanha o companheiro que lho passa até que estejam à mesma velocidade. Assim deveria ter sido!
Neste caso temos duas situações principais, não falando dos casos dos médicos e enfermeiros enquanto funcionários, já tratados no post anterior: as maternidades e as urgências.
Desde já devo dizer que concordo com o encerramento de serviços sem condições e sem casuística que justifique a sua existência. O problema foi o método...
No caso das maternidades, nomeou-se uma comissão científica, como é de bom tom, que produziu um estudo onde se propunham as maternidades a encerrar e a manter-se, responsabilizando-se estas pelo trabalho das encerradas.
Acontece que, não pondo em causa o valor científico dos senhores professores doutores membros da comissão, falta ao trabalho uma característica fundamental para ser científico - não é repetível!
No trabalho não se discriminam as condições de cada maternidade, uma a uma, para se concluir estar ou não dentro dos parâmetros exigidos. Foi-se simplesmente pela casuística e localização, que se confundiu com qualidade, omitindo todo o resto.
Chegou-se ao facto incrível e ridículo de o sr. ministro entregar ao Serviço de Obstetrícia de um hospital o Prémio Educação 2005/06 pelo projecto Preparação Parental para o Nascimento e, no dia seguinte, o mesmo sr. ministro encerrar o mesmo serviço por, com base no tal trabalho "científico", não ter qualidade.
Esse serviço, que tinha laboratório permanente 2 pisos abaixo, bloco operatório na porta em frente e equipas de anestesia e cirurgia permanentemente disponíveis, encerrou. Ficou aberta uma maternidade, na capital de distrito, sem laboratório e sem equipa cirúrgica permanente.
Se houvesse a frontalidade de dizer que, em face da casuística, a análise custo-benefício era desfavorável à manutenção do funcionamento, toda a gente perceberia.
Se um restaurante com cerca de 30 trabalhadores só servir uma refeição por dia, toda a gente percebe que é insustentável e terá de fechar.
Por outro lado, houve a pressa arrogante de impor os encerramentos, sem cuidar antecipadamente de dotar as maternidades que se mantinham com os meios de instalações, equipamentos e pessoal necessários para assistir os novos utentes. Vi situações em que enfermarias para 2 camas tinham 4, devido ao novo afluxo.
Quanto às Urgências, o processo foi semelhante.
Neste caso, a comissão produziu um trabalho bem justificado e repetível. Só falhou em não atender a que 60 km na A1 às 23H00, não é o mesmo que 60 km nas estradas da Pampilhosa da Serra à mesma hora, com neve ou nevoeiro.
As populações e a comunicação social confundiam SAP com Urgência. Para quem nunca viu uma Urgência a sério, é fácil estar convencido que um SAP lhe pode salvar a vida.
Não houve o cuidado de informar as pessoas de que os médicos e enfermeiros dos SAP faziam "milagres" todos os dias para atenderem decentemente os utentes, em condições deploráveis de instalações, sem equipamentos e sem qualquer tipo de apoio profissional. Vi alguns onde o equipamento era um esfigmomanómetro, um estetoscópio e um "diagnostic set".
Nestas condições, nem o NOBEL da medicina tinha meios de diagnosticar fosse o que fosse...
Como nestas coisas da saúde o sentimento de segurança é fundamental, faltou fazer as transformações de modo gradual e colocar os meios alternativos nos locais antes dos encerramentos, dando assim confiança aos utentes.
Numa corrida de estafetas, o atleta que recebe o testemunho acompanha o companheiro que lho passa até que estejam à mesma velocidade. Assim deveria ter sido!
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Uma ajudinha ao sr. primeiro-ministro (1) - Administração Pública
Em entrevista relativamente recente a uma estação televisiva o sr. primeiro-ministro mostrou dificuldades em compreender a razão da crítica ao governo consubstanciada na derrota nas eleições europeias.
Como gosto de ajudar quem necessita, cá vão umas dicas para o ajudar a compreender.
Uma vez que os textos muito longos são fastidiosos e a análise terá uma certa extensão, vamos dividi-la em três aspectos, constantes de outros tantos textos: Administração Pública, saúde e obras estruturantes, sendo certo que a raiz de todos os problemas está na atitude arrogante de quem pensa que, por ter maioria parlamentar, não tem satisfações a dar a ninguém e em certas dificuldades na convergência com a verdade.
Neste primeiro texto, vamos tratar da Administração Pública.
É evidente que a Administração Pública, regida por legislação estrutural produzida pelo prof. Salazar há cerca de 70 anos, necessita de uma renovação. É que essa legislação foi criada para um país que existia, com um regime que existia, num mundo que existia. Hoje tudo é diferente! Há que agilizar e actualizar. O Estado deve funcionar como uma empresa (saber-se onde se gasta o dinheiro, como e porquê), o que não implica que seja uma empresa.
Esteve bem o governo na modernização administrativa, de que até houve um ministro, há 20 anos, sem resultados visíveis. Acabar com os papéis e passos desnecessários, criação de balcões únicos, etc. Tudo isso foi muito meritório!
Para dar um ar modernaço, seguiu os passos dos governos anteriores de Durão Barroso, Ferreira Leite e Bagão Félix na perseguição a tudo o que cheirasse a funcionário público, fosse ele administrativo, médico, enfermeiro, professor, etc. Com as citadas dificuldades de convergência com a verdade, continuou a passar para a opinião pública que se tratava de uma cambada de madraços que não queriam trabalhar, nunca tinham sido avaliados e auferiam de lautos vencimentos. Não me esquece o debate com o dr. Paulo Portas, onde os dois discutiam aos berros quem tinha abatido mais funcionários ao efectivo. Parecia um tasco de pescadores a discutir os tamanhos do pescado!
A verdade é que toda esta gente, na generalidade, é trabalhadora de grande qualidade e foi sempre avaliada todos os anos (posso mostrar fotocópias das minhas). Será que é por serem malandros que o nosso Serviço Nacional de Saúde é um dos melhores do mundo? Quem o colocou neste nível foram acaso os "boys" nomeados pelos governos dos últimos nove anos?
Quanto a vencimentos, enviesando a estatística e seguindo o dr. Bagão Félix, quis demonstrar que os funcionários tinham vencimentos muito mais altos que os trabalhadores das empresas privadas. Evitando as comparações entre profissionais (tem horror aos casos concretos), usou a média. É óbvio que a média de vencimentos de um conjunto onde 50% tem formação superior, terá que ser superior à média do universo dos restantes trabalhadores. Já se compararmos profissionais equivalentes, os resultados são opostos. Recordo-me que, já em 1980, como engenheiro num hospital, ganhava o mesmo que o porteiro da CELBI ou o leitor de contadores da EDP!
Para meter esta gente "na ordem" teimou em aplicar o caricato SIADAP, herdado dos governos PSD/CDS. Como é que um sistema de avaliação desenhado obviamente para unidades de produção pode aplicar-se directamente a unidades de prestação de serviços, como são as da Administração Pública? Só a arrogância ignorante o pode impor!
E aquela ideia das cotas de classificação? Alguém admitia que num exame se dissesse aos alunos que, independentemente do que fizessem, só 5% podia ter mais de 19 e 25% mais de 18?
Que haja cotas na pirâmide das carreiras, é óbvio e ninguém contesta, embora se conheçam casos de nomeação recente de chefes de departamentos sem mais funcionários. Questões de "cartão"?!
Se não fossem as citadas arrogância e dificuldade de convergência com a verdade, certamente teria o sr. primeiro-ministro a esmagadora maioria dos funcionários a seu lado para uma modernização administrativa coerente, gradual e com êxito.
Para a próxima, falamos da saúde.
Como gosto de ajudar quem necessita, cá vão umas dicas para o ajudar a compreender.
Uma vez que os textos muito longos são fastidiosos e a análise terá uma certa extensão, vamos dividi-la em três aspectos, constantes de outros tantos textos: Administração Pública, saúde e obras estruturantes, sendo certo que a raiz de todos os problemas está na atitude arrogante de quem pensa que, por ter maioria parlamentar, não tem satisfações a dar a ninguém e em certas dificuldades na convergência com a verdade.
Neste primeiro texto, vamos tratar da Administração Pública.
É evidente que a Administração Pública, regida por legislação estrutural produzida pelo prof. Salazar há cerca de 70 anos, necessita de uma renovação. É que essa legislação foi criada para um país que existia, com um regime que existia, num mundo que existia. Hoje tudo é diferente! Há que agilizar e actualizar. O Estado deve funcionar como uma empresa (saber-se onde se gasta o dinheiro, como e porquê), o que não implica que seja uma empresa.
Esteve bem o governo na modernização administrativa, de que até houve um ministro, há 20 anos, sem resultados visíveis. Acabar com os papéis e passos desnecessários, criação de balcões únicos, etc. Tudo isso foi muito meritório!
Para dar um ar modernaço, seguiu os passos dos governos anteriores de Durão Barroso, Ferreira Leite e Bagão Félix na perseguição a tudo o que cheirasse a funcionário público, fosse ele administrativo, médico, enfermeiro, professor, etc. Com as citadas dificuldades de convergência com a verdade, continuou a passar para a opinião pública que se tratava de uma cambada de madraços que não queriam trabalhar, nunca tinham sido avaliados e auferiam de lautos vencimentos. Não me esquece o debate com o dr. Paulo Portas, onde os dois discutiam aos berros quem tinha abatido mais funcionários ao efectivo. Parecia um tasco de pescadores a discutir os tamanhos do pescado!
A verdade é que toda esta gente, na generalidade, é trabalhadora de grande qualidade e foi sempre avaliada todos os anos (posso mostrar fotocópias das minhas). Será que é por serem malandros que o nosso Serviço Nacional de Saúde é um dos melhores do mundo? Quem o colocou neste nível foram acaso os "boys" nomeados pelos governos dos últimos nove anos?
Quanto a vencimentos, enviesando a estatística e seguindo o dr. Bagão Félix, quis demonstrar que os funcionários tinham vencimentos muito mais altos que os trabalhadores das empresas privadas. Evitando as comparações entre profissionais (tem horror aos casos concretos), usou a média. É óbvio que a média de vencimentos de um conjunto onde 50% tem formação superior, terá que ser superior à média do universo dos restantes trabalhadores. Já se compararmos profissionais equivalentes, os resultados são opostos. Recordo-me que, já em 1980, como engenheiro num hospital, ganhava o mesmo que o porteiro da CELBI ou o leitor de contadores da EDP!
Para meter esta gente "na ordem" teimou em aplicar o caricato SIADAP, herdado dos governos PSD/CDS. Como é que um sistema de avaliação desenhado obviamente para unidades de produção pode aplicar-se directamente a unidades de prestação de serviços, como são as da Administração Pública? Só a arrogância ignorante o pode impor!
E aquela ideia das cotas de classificação? Alguém admitia que num exame se dissesse aos alunos que, independentemente do que fizessem, só 5% podia ter mais de 19 e 25% mais de 18?
Que haja cotas na pirâmide das carreiras, é óbvio e ninguém contesta, embora se conheçam casos de nomeação recente de chefes de departamentos sem mais funcionários. Questões de "cartão"?!
Se não fossem as citadas arrogância e dificuldade de convergência com a verdade, certamente teria o sr. primeiro-ministro a esmagadora maioria dos funcionários a seu lado para uma modernização administrativa coerente, gradual e com êxito.
Para a próxima, falamos da saúde.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Emprego para a vida ou temporário?
Na edição da passada 3.ª feira, dia 16, do excelente programa "Sociedade Civil" da RTP 2, o tema era "2.º emprego", onde os participantes acabaram por pôr em confronto o velho conceito do emprego para a vida e o cada vez mais praticado trabalho temporário ou de contrato a termo certo. Nada mais "fracturante"!
Entre os participantes, como sempre de elevado nível, sobressaía um gestor de recursos humanos, acérrimo defensor do trabalho a termo.
Dizia o senhor que o emprego para a vida acabou, o que é sinal de progresso, uma vez que os trabalhadores inseguros produzem mais e trabalham mais horas, o que aumenta a produtividade. O senhor Taylor da teoria do chicote e da cenoura não diria melhor! Só que o senhor Taylor morreu em 1915 e está ultrapassadote...
Outra das afirmações do citado senhor foi que o facto de haver profissões, como os enfermeiros, onde há profissionais com 4 empregos e muitos outros desempregados, é sinal positivo: é o mercado a funcionar!
E o senhor gestor de recursos humanos dizia estas coisas com o ar empolgado do fanático religioso a citar os seus dogmas...
Ora tentemos comparar as duas situações, do ponto de vista da empresa empregadora e sem preconceitos ideológico-partidários, que enviesam sempre as coisas.
Quando há uns anos uma pessoa entrava para um emprego, considerava-o desde logo "para a vida". Era uma parte da empresa, trabalho comum de vários, ia deitando o olho ao que se passava à volta, avisava de situações que considerava menos boas para o objectivo comum. Enfim, criava-se uma simbiose entre a empresa e o trabalhador, que era e se sentia mais que uma peça da máquina ou um vendedor de tempo de trabalho. O trabalhador, com um sentimento de segurança, empregava o melhor das suas capacidades nas tarefas que realizava.
Testemunhei isto na instalação do Hospital da Figueira da Foz no actual edifício da Gala em 1975 e 1976. Um grupo de pessoas, que ia gradualmente aumentando, trabalhava com entusiasmo horas e horas, sem remunerações adicionais, só para fazer o "nosso hospital". Sentíamos que aquela era a nossa casa para a vida! Chegou-se mesmo a resistir a determinações governamentais.
Na actual situação dos contratados a prazo, o trabalhador sem qualquer esperança de futuro fica na condição de mercenário ou outros vendedores do tempo e do físico. Não tem nada a ver com a empresa em que trabalha, não apresenta propostas para não "fazer ondas", produz o estritamente contratado. Inseguro, realiza as suas tarefas com o pensamento de onde arranjar o próximo emprego quando este contrato acabar. Está-se nas tintas para os resultados da empresa, com que não sente qualquer afinidade. Se lhe pagam 10 porquê trabalhar 12? Quando compro maçãs também ninguém me dá mais do que eu paguei...
Também proliferam as empresas de trabalho temporário (antigamente chamavam-se negreiros...) que vendem e alugam trabalhadores às empresas que deles necessitam, ficando com parte do salário.
A empresa, em vez de uma família, é um sítio onde um grupo de desconhecidos vende umas horas. Será que isto incentiva a produtividade?
Será muito difícil ver isto?
Entre os participantes, como sempre de elevado nível, sobressaía um gestor de recursos humanos, acérrimo defensor do trabalho a termo.
Dizia o senhor que o emprego para a vida acabou, o que é sinal de progresso, uma vez que os trabalhadores inseguros produzem mais e trabalham mais horas, o que aumenta a produtividade. O senhor Taylor da teoria do chicote e da cenoura não diria melhor! Só que o senhor Taylor morreu em 1915 e está ultrapassadote...
Outra das afirmações do citado senhor foi que o facto de haver profissões, como os enfermeiros, onde há profissionais com 4 empregos e muitos outros desempregados, é sinal positivo: é o mercado a funcionar!
E o senhor gestor de recursos humanos dizia estas coisas com o ar empolgado do fanático religioso a citar os seus dogmas...
Ora tentemos comparar as duas situações, do ponto de vista da empresa empregadora e sem preconceitos ideológico-partidários, que enviesam sempre as coisas.
Quando há uns anos uma pessoa entrava para um emprego, considerava-o desde logo "para a vida". Era uma parte da empresa, trabalho comum de vários, ia deitando o olho ao que se passava à volta, avisava de situações que considerava menos boas para o objectivo comum. Enfim, criava-se uma simbiose entre a empresa e o trabalhador, que era e se sentia mais que uma peça da máquina ou um vendedor de tempo de trabalho. O trabalhador, com um sentimento de segurança, empregava o melhor das suas capacidades nas tarefas que realizava.
Testemunhei isto na instalação do Hospital da Figueira da Foz no actual edifício da Gala em 1975 e 1976. Um grupo de pessoas, que ia gradualmente aumentando, trabalhava com entusiasmo horas e horas, sem remunerações adicionais, só para fazer o "nosso hospital". Sentíamos que aquela era a nossa casa para a vida! Chegou-se mesmo a resistir a determinações governamentais.
Na actual situação dos contratados a prazo, o trabalhador sem qualquer esperança de futuro fica na condição de mercenário ou outros vendedores do tempo e do físico. Não tem nada a ver com a empresa em que trabalha, não apresenta propostas para não "fazer ondas", produz o estritamente contratado. Inseguro, realiza as suas tarefas com o pensamento de onde arranjar o próximo emprego quando este contrato acabar. Está-se nas tintas para os resultados da empresa, com que não sente qualquer afinidade. Se lhe pagam 10 porquê trabalhar 12? Quando compro maçãs também ninguém me dá mais do que eu paguei...
Também proliferam as empresas de trabalho temporário (antigamente chamavam-se negreiros...) que vendem e alugam trabalhadores às empresas que deles necessitam, ficando com parte do salário.
A empresa, em vez de uma família, é um sítio onde um grupo de desconhecidos vende umas horas. Será que isto incentiva a produtividade?
Será muito difícil ver isto?
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Orgulho e vergonha
Alguém na RTP teve a feliz ideia de apresentar um programa - As 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo - que nos mostrou património edificado e classificado pela UNESCO, de cuja existência certamente 99% dos portugueses nem desconfiava, mas também o sentimento das populações locais relativamente à memória dos portugueses.
Da minha experiência, a maioria dessa gente desconhece totalmente que haja um país chamado Portugal, salvo os que se interessam pelo futebol, mas para todos há uma profunda memória dos Portugueses como povo, às vezes mítico. É assim, nomeadamente no Oriente.
Claro que a constatação desta memória positiva nos deve encher de orgulho. Afinal, desfeito materialmente o império, parece que restou qualquer coisa de muito mais válida que o ouro do Brasil ou o comércio da Índia. Os nossos antepassados deixaram uma aura de respeito, admiração e amizade nos mais distantes lugares da Terra. Resta-nos ser dignos da herança!
Aqui é que começa a vergonha... Ouvimos as queixas das gentes de Diu, de Goa, de Malaca, e eu ouvi os de Singapura, fartos de implorar aos governos portugueses, um livro, uma cassete de música (fui testemunha!), uma simples resposta a uma carta e... nada!
Para os incompetentes e ignorantes que nos têm governado, como dali não chegam subsídios nem negociatas imediatos, não é coisa que mereça resposta.
Se algumas respostas houve foram de alguns padres, como o padre Manuel Teixeira, transmontano, o padre Lancelote Rodrigues, malaqueiro, ou D. Domingos Lam, bispo de Macau, chinês, e do último governador de Macau, general Rocha Vieira, que apoiaram dentro das suas possibilidades alguns grupos de descendentes dos portugueses de há 300 anos, nomeadamente em Malaca e Singapura.
Nesses grupos, como o Eurasian Association de Singapura, ainda hoje os mais velhos ensinam semanalmente aos mais novos o Português que sabem - Papiar Kristang - mistura do português de há 300 anos com o malaio, mantêm uma gastronomia de origem portuguesa, cantam as músicas portuguesas de que se lembram e mantêm orgulhosamente nas paredes da associação quadros com as árvores genealógicas das principais famílias, com o português na base. Dizem-se portugueses como afirmação social.
Esta gente, que não é propriamente pedinte, mas influente na economia e no meio social, por exemplo, de Singapura, podia ser muito útil à nossa economia se os nossos governantes tivessem olhos para ver. Bem sei que não jogam futebol, mas são gente que muito poderia ajudar os "parentes", se eles tivessem a amabilidade de lhes dar a mínima atenção.
Talvez porque haja afinal algum governante com vergonha na cara, vi declarações da presidente do Instituto Camões (mas porque é que um organismo eminentemente cultural tem de estar no Ministério dos Negócios Estrangeiros?!), dr.ª Simonetta Luz Afonso, no sentido da criação de um leitor itinerante para apoio a essas comunidades.
A missão não podia estar melhor entregue. A dr.ª Simonetta é profunda conhecedora da situação da herança portuguesa no Oriente e certamente envidará todos os esforços para "limpar" a imagem de Portugal e dos portugueses e colaborar com tão generosas gentes, desde que lhe sejam facultados meios, claro.
É que já houve uma embaixadora, hoje deputada europeia, que fechou a embaixada por não lhe darem verbas para o simples telefone. Esteve meses a pagar do bolso dela!
Espero que sejam dados todos os meios a essa missão e que afastem dela os diplomatas. É que cada um deve fazer o que sabe e o resultado da intervenção diplomática está à vista...
Da minha experiência, a maioria dessa gente desconhece totalmente que haja um país chamado Portugal, salvo os que se interessam pelo futebol, mas para todos há uma profunda memória dos Portugueses como povo, às vezes mítico. É assim, nomeadamente no Oriente.
Claro que a constatação desta memória positiva nos deve encher de orgulho. Afinal, desfeito materialmente o império, parece que restou qualquer coisa de muito mais válida que o ouro do Brasil ou o comércio da Índia. Os nossos antepassados deixaram uma aura de respeito, admiração e amizade nos mais distantes lugares da Terra. Resta-nos ser dignos da herança!
Aqui é que começa a vergonha... Ouvimos as queixas das gentes de Diu, de Goa, de Malaca, e eu ouvi os de Singapura, fartos de implorar aos governos portugueses, um livro, uma cassete de música (fui testemunha!), uma simples resposta a uma carta e... nada!
Para os incompetentes e ignorantes que nos têm governado, como dali não chegam subsídios nem negociatas imediatos, não é coisa que mereça resposta.
Se algumas respostas houve foram de alguns padres, como o padre Manuel Teixeira, transmontano, o padre Lancelote Rodrigues, malaqueiro, ou D. Domingos Lam, bispo de Macau, chinês, e do último governador de Macau, general Rocha Vieira, que apoiaram dentro das suas possibilidades alguns grupos de descendentes dos portugueses de há 300 anos, nomeadamente em Malaca e Singapura.
Nesses grupos, como o Eurasian Association de Singapura, ainda hoje os mais velhos ensinam semanalmente aos mais novos o Português que sabem - Papiar Kristang - mistura do português de há 300 anos com o malaio, mantêm uma gastronomia de origem portuguesa, cantam as músicas portuguesas de que se lembram e mantêm orgulhosamente nas paredes da associação quadros com as árvores genealógicas das principais famílias, com o português na base. Dizem-se portugueses como afirmação social.
Esta gente, que não é propriamente pedinte, mas influente na economia e no meio social, por exemplo, de Singapura, podia ser muito útil à nossa economia se os nossos governantes tivessem olhos para ver. Bem sei que não jogam futebol, mas são gente que muito poderia ajudar os "parentes", se eles tivessem a amabilidade de lhes dar a mínima atenção.
Talvez porque haja afinal algum governante com vergonha na cara, vi declarações da presidente do Instituto Camões (mas porque é que um organismo eminentemente cultural tem de estar no Ministério dos Negócios Estrangeiros?!), dr.ª Simonetta Luz Afonso, no sentido da criação de um leitor itinerante para apoio a essas comunidades.
A missão não podia estar melhor entregue. A dr.ª Simonetta é profunda conhecedora da situação da herança portuguesa no Oriente e certamente envidará todos os esforços para "limpar" a imagem de Portugal e dos portugueses e colaborar com tão generosas gentes, desde que lhe sejam facultados meios, claro.
É que já houve uma embaixadora, hoje deputada europeia, que fechou a embaixada por não lhe darem verbas para o simples telefone. Esteve meses a pagar do bolso dela!
Espero que sejam dados todos os meios a essa missão e que afastem dela os diplomatas. É que cada um deve fazer o que sabe e o resultado da intervenção diplomática está à vista...
domingo, 17 de maio de 2009
O Manual do Aplicador
Ouvidas as notícias sobre a indignação da FENPROF relativamente a um Manual do Aplicador para utilização dos professores encarregados de vigiar as provas de aferição dos 4.º e 6.º anos, achei exageradas as críticas e busquei na NET o dito manual. Não encontrei o de 2009, mas encontrei o de 2007. Obra notável!
Não se limita a ser um protocolo de procedimentos, que defendo na maioria das situações nas empresas, mas mais parece o script de uma peça de teatro.
Nos textos sombreados a amarelo proíbe-se o professor de tentar interpretar o que vai ler, limitando-se a ler exactamente o que é apresentado ao longo do manual.
De facto, dada a conhecida indigência cultural dos professores, seria demasiado esperar que soubessem interpretar tão rebuscados conceitos!
Mais à frente, noutro sombreado amarelo, proíbe-se o professor de ler o conteúdo da prova. Mais uma vez o autor defende o professor de se embrenhar em conceitos que ultrapassam muito as suas capacidades.
Só noto uma falha no manual: O script não contempla que o professor diga "bom dia" quando encontra os alunos à porta da sala às 9 horas e 45 minutos. É que, broncos como se sabe serem, certamente não terão tal amabilidade!
Se os "lá do alto império" me permitem uma opinião, direi que, dada a altíssima qualidade do manual, o professor passa a ser um elemento supérfluo na questão e gerador de despesas inúteis no processo.
Se é para reproduzir textualmente o que diz o manual sem o interpretar e vigiar horários e procedimentos, seria muito mais económico instalar um robot e um sistema de vigilância electrónica controlados por um vigilante de uma empresa de segurança.
As vantagens seriam consideráveis:
- O vigilante ganha muito menos que um professor
- Dava-se mais trabalho às empresas privadas, lutando contra a crise
- Os robots ainda não fazem greves
- Podia haver na porta uma célula de medida das dimensões das vestimentas
- Podia ser gravada a voz da sr.ª ministra, evitando assim qualquer possível desvio em termos de entoação da leitura.
Estavam à espera que eu criticasse o manual, era?!
Não se limita a ser um protocolo de procedimentos, que defendo na maioria das situações nas empresas, mas mais parece o script de uma peça de teatro.
Nos textos sombreados a amarelo proíbe-se o professor de tentar interpretar o que vai ler, limitando-se a ler exactamente o que é apresentado ao longo do manual.
De facto, dada a conhecida indigência cultural dos professores, seria demasiado esperar que soubessem interpretar tão rebuscados conceitos!
Mais à frente, noutro sombreado amarelo, proíbe-se o professor de ler o conteúdo da prova. Mais uma vez o autor defende o professor de se embrenhar em conceitos que ultrapassam muito as suas capacidades.
Só noto uma falha no manual: O script não contempla que o professor diga "bom dia" quando encontra os alunos à porta da sala às 9 horas e 45 minutos. É que, broncos como se sabe serem, certamente não terão tal amabilidade!
Se os "lá do alto império" me permitem uma opinião, direi que, dada a altíssima qualidade do manual, o professor passa a ser um elemento supérfluo na questão e gerador de despesas inúteis no processo.
Se é para reproduzir textualmente o que diz o manual sem o interpretar e vigiar horários e procedimentos, seria muito mais económico instalar um robot e um sistema de vigilância electrónica controlados por um vigilante de uma empresa de segurança.
As vantagens seriam consideráveis:
- O vigilante ganha muito menos que um professor
- Dava-se mais trabalho às empresas privadas, lutando contra a crise
- Os robots ainda não fazem greves
- Podia haver na porta uma célula de medida das dimensões das vestimentas
- Podia ser gravada a voz da sr.ª ministra, evitando assim qualquer possível desvio em termos de entoação da leitura.
Estavam à espera que eu criticasse o manual, era?!
sexta-feira, 1 de maio de 2009
A agressão e os culpados
Claro que me refiro à agressão e insultos de que foi vítima o Prof. Vital Moreira na manifestação de hoje da CGTP.
Quem são os culpados?
No coliseu de Roma, quando os cristãos eram lançados aos leões que os estraçalhavam, os culpados eram o leões?
O sr. Professor nos posts dos últimos anos do seu blogue, sem direito a comentários, tem dito dos professores, dos enfermeiros, dos médicos, dos funcionários públicos em geral e de toda a gente que não diz amen ao sr. engenheiro, o que Maomé não disse do toucinho.
O PS, convidado a fazer representar-se na manifestação onde estavam maioritariamente os ofendidos pelo senhor, em vez de mandar alguém menos agressivo, foi logo mandá-lo a ele. Era previsível que não seria bem recebido. Não se estava na Assembleia, onde mentira se diz eufemisticamente inverdade. Estava-se com gente habituada a chamar os bois pelos nomes. Aconteceu!
Não estou de modo algum a justificar a agressão, que nunca será método democrático e civilizado de resolver os diferendos, mas que às vezes apetece... apetece!
Quem semeia ventos... colhe tempestades!
Quem são os culpados?
No coliseu de Roma, quando os cristãos eram lançados aos leões que os estraçalhavam, os culpados eram o leões?
O sr. Professor nos posts dos últimos anos do seu blogue, sem direito a comentários, tem dito dos professores, dos enfermeiros, dos médicos, dos funcionários públicos em geral e de toda a gente que não diz amen ao sr. engenheiro, o que Maomé não disse do toucinho.
O PS, convidado a fazer representar-se na manifestação onde estavam maioritariamente os ofendidos pelo senhor, em vez de mandar alguém menos agressivo, foi logo mandá-lo a ele. Era previsível que não seria bem recebido. Não se estava na Assembleia, onde mentira se diz eufemisticamente inverdade. Estava-se com gente habituada a chamar os bois pelos nomes. Aconteceu!
Não estou de modo algum a justificar a agressão, que nunca será método democrático e civilizado de resolver os diferendos, mas que às vezes apetece... apetece!
Quem semeia ventos... colhe tempestades!
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