sexta-feira, 1 de maio de 2009

A gripe - Um procedimento exemplar

A ameaça da gripe, agora classificada de A para descanso dos pobres suínos, caiu nos noticiários como a proximidade do juizo final.

Falou-se da probabilidade de dezenas de milhões de mortos, enfim, uma catástrofe!

Do governo esperava-se, e alguma imprensa exigia, daquelas acções de grande espectáculo, que dão sempre a ideia de grande eficiência. Por exemplo, o governo egípcio mandou abater todos os porcos do país. Como os porcos nada tinham a ver com o assunto, a não ser o nome do virus, aí está uma acção espectacular, mas perfeitamente estúpida.

Estou-me a recordar do relativamente recente caso da gripe das aves em que, para dar ideia de grande preocupação, se ordenou a existência de salas de "isolamento" em todas as urgências hospitalares. Como uma sala de isolamento é uma unidade complicada impossível de fazer em poucos dias e, mesmo assim, implica grandes verbas, chamou-se "sala de isolamento" a uma qualquer sala em que a porta se pudesse manter fechada. Aqui está um exemplo de uma grossa asneira de grande impacto mediático.

Ao contrário, a nossa ministra da Saúde, com a serenidade que lhe é peculiar, organizou um esquema funcional e eficaz, sem alardes nem populismos mediáticos, que podem dar grandes títulos mas também originar enormes asneiras.

Organizou-se a resposta em 4 centros devidamente equipados, diminuiu-se a possibilidade de contágio afastando as pessoas das perigosíssimas salas de espera das unidades de saúde, assegurou-se o acesso a toda a gente com ambulâncias próprias e infundiu-se a calma e a confiança fundamentais em casos destes. E fundamentalmente mantém-se a população devidamente informada e vai-se adequando a resposta às solicitações da situação.

Grande exemplo para outros ministros...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Um santo incómodo

Realizam-se no próximo domingo, dia 26, as cerimónias de canonização do Beato Nuno de Santa Maria, figura histórica Nuno Álvares Pereira.

A notícia passa despercebida, por não se tratar das notáveis celebridades da "Caras" nem das tertúlias da SIC. Claro que interessa muito mais ao país saber se uma dessas celebridades está ou não constipada.

Por outro lado, trata-se de uma personalidade incómoda aos poderes constituídos, tal como Aristides Sousa Mendes, pois deu-se ao desplante de ter coluna vertebral e obedecer a valores, o que constitui muito mau exemplo nos tempos que vão correndo.

Filho do prior do Crato (um dos 26 conhecidos...), tentou realizar sempre o melhor dos ideais da cavalaria medieval em que foi educado. Como chefe militar nunca permitiu que os seus homens se dedicassem às pilhagens e violações que eram normais por parte dos vencedores de batalhas.

Sendo descendente, não herdeiro primogénito, de um poderoso senhor feudal, não hesitou em se juntar e chefiar as massas populares famintas e os ainda incipientes burgueses contra o poder feudal representado por D. João de Castela e pelo seu próprio irmão.

Também não será muito simpático à Igreja mais tradicional, pois não se tratou de um dos santinhos apalermados com os olhos em êxtase para o céu que nos servem nos altares, mas de um homem vertical, com ideias muito firmes, que não se limitava a "adorar", antes a pôr em prática os valores da doutrina cristã.

Conta-se que, terminada a fase das guerras com Castela, entrou em dissidência política com o seu amigo rei D. João I e, havendo um almoço de estado para que não o convidaram, entrou na sala e simplesmente virou a mesa com tudo o que tinha em cima.

Digam lá se, para santo e para político, não é incómodo e mau exemplo!?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O S. João fez 50 anos...

Pois é. Já lá vão 50 anos!

Lembro-me perfeitamente do dia da inauguração daquele edifício que sempre tinha conhecido de ver das traseiras da minha casa e que me habituei a ouvir designar por "Hospital da Cidade".

Era uma coisa, para nós, digna de ficção científica. Tinha o luxo de uma travesseirinha com altifalante em cada cama, para que o doente pudesse ouvir cómoda e privadamente rádio ou música, a partir da emissão central do hospital. Também havia um sistema de antenas que circundavam o edifício e que permitiam chamar algumas pessoas, médicos e enfermeiros-chefes, através de um alarme tipo esferográfica que tinham no bolso da bata. Os assim alertados dirigiam-se ao telefone interno mais próximo a contactavam a central, que lhes transmitia a mensagem pretendida. Isto há 50 anos, era obra! Tinha um consumo de electricidade semelhante ao da cidade de Braga!

Passados alguns anos, tanto eu como a minha mulher iniciámos lá as nossas carreiras profissionais.

Nessa altura, o hospital era dirigido pelo provedor dr. João Rodrigues, que deu tanto de si ao novo projecto que lhe chamavam "hospital do João".

Foi uma autêntica revolução naquela zona de Paranhos. Abriram-se os acessos ao hospital. O autocarro da carreira E, que inicialmente se dirigia a Contumil, via Paranhos, passou a dirigir-se ao novo hospital. Também a carreira D, pelas Antas, passou a servir o hospital. Depois foi o L, para a Maia.

No próximo sábado vamos ter o prazer de participar numa parte da festa de aniversário daquela casa que também já sentimos nossa.

Como na cantiga dos parabéns, pr'ó "menino João" uma salva de palmas...!

domingo, 12 de abril de 2009

A guerra dos genéricos

Recentemente voltou às primeiras páginas da imprensa o conflito que envolve a Associação Nacional de Farmácias (ANF), a Ordem dos Médicos e o Governo acerca do fornecimento mais ou menos livre de genéricos pelas farmácias.

Como o tema envolve o dinheiro dos utentes, e do Estado, é fácil criar divisões demagógicas extremadas sobre o assunto. Uns dizem que os genéricos são a melhor coisa do mundo e fonte de enormes economias para as finanças do SNS. Outros, pelo contrário, diabolizam tais medicamentos só faltando dizer que são feitos atrás da porta nos acampamentos ciganos.

O Zé utente e pagante fica perfeitamente baralhado sem saber em quem acreditar, uma vez que já tem larga experiência de qualquer dos contendores lhe enfiar memoráveis barretes.

Pessoalmente, devo já dizer que defendo a utilização dos genéricos sempre que possível e em unidose.
Sabem que há países (por exemplo a Tailândia) onde as farmácias só existem nos hospitais, onde termina o circuito do doente, e em sistema uniodose? Vi isso em hospitais de empresas multinacionais do ramo, não se tratando portanto de delírios socialistas.

Com alguns anos de experiência na Saúde, vou tentar explicar a situação.

Todos sabemos que a indústria farmacêutica constitui um dos potentados mundiais, chegando a pôr e depor governos, e que fica prejudicada com a entrada no mercado dos genéricos, que não são mais que os seus produtos cujo prazo de registo reservado já expirou. Os sucessivos governos, desde há mais de 30 anos, deixaram que esta indústria se apoderasse do sistema de saúde, dominando actualmente os equipamentos de análises e a quase exclusividade da formação contínua dos médicos, para além de ser credora de muitos milhões de euros ao Estado.

Por outro lado, as farmácias comerciais, também credoras de milhões de euros ao Estado, seu maior cliente, estão interessadas na venda dos genéricos (diz-se que a ANF é sócia de uma produtora de genéricos), até para aumentarem as vendas devido à baixa de preço. Nem a indústria nem as farmácias parecem particularmente interessadas na unidose, que lhes baixaria substancialmente os lucros.

A ministra da Saúde tem a infelicidade de estar, neste caso, na situação do fiambre na sande. De um lado, a toda poderosa indústria, a quem deve milhões e que a pode deixar de um dia para outro sem análises e sem medicamentos. Por outro lado, as farmácias, a quem também deve milhões, e que têm toda a facilidade de conquistar a simpatia dos utentes (são votos!), com a promessa de preços mais baixos. Aqui as farmácias estão numa situação mais fraca, uma vez que, sendo o Estado o seu maior cliente, se não lhe venderem fecham a porta.

Claro que os genéricos, devidamente controlados e em unidose fazem parte de uma solução para baixar os custos do SNS.

Em defesa do SNS temos o dever de apoiar a ministra nesta situação.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O caso do comboio da Figueira

Depois de ler o post http://palavras-cruzadas.blogspot.com/2009/03/ligacao-ferroviaria-figueira-da-foz.html, tendo sido durante vários anos utente do mesmo vai-vem, não resisto a comentar.

Vejamos o que se passou:

Umas senhoras recolheram durante a viagem assinaturas para um abaixo-assinado de protesto contra os recorrentes atrasos na linha Figueira da Foz - Coimbra. O revisor chamou a polícia, que respondeu à chamada, identificando as senhoras à chegada à Figueira da Foz, como organizadoras de um movimento, pelos vistos uma infracção legal.

Claro que logo apareceram os comentadores com acusações de fascismo, acção pidesca, etc., que só podem ser fruto de mentes seguidoras de ideias comunistas, anarquistas e outras ideias subversivas, bem como de organizadoras de campanhas negras.

Vejamos do que, em minha opinião, se trata:

A CP ( ou lá como se chama agora a empresa dos comboios), conhecedora do estado deficitário do turismo da Figueira da Foz e sabendo o chamariz de multidões que são as reconstituições históricas, resolveu dar uma ajudinha.

Já imaginaram as multidões que se deslocarão à Figueira, vindas da Austrália, Canadá, quiçá do Burkina-Faso, para verem e andarem num comboio que consegue fazer os míseros 50 Km da Figueira a Coimbra no tempo de 1h 06m, à estonteante velocidade média de 45 Km/h?

Assim, resolveram dar essa prenda à Figueira, com um comboio de há 50 anos atrás.

Então acreditam que um revisor, em 2009, ia chamar a polícia por alguém andar a recolher assinaturas? Claro que é uma reconstitução de algum "bufo" de há 50 anos!

Acreditam que a PSP da Figueira da Foz, a braços com traficantes de droga e outra bandidagem às dúzias, ia perder tempo a atender uma denúncia de "organização de movimento"? Obviamente que não. Os senhores fardados eram figurantes da já referida reconstituição!

Estão esclarecidos?

domingo, 1 de março de 2009

Sexo, moral e bons costumes

Nas últimas semanas houve três acontecimentos que ocuparam as parangonas da comunicação social: as posições da Igreja sobre homossexualismo, a retirada das imagens de um carro de carnaval em Torres Vedras e a apreensão de livros em Braga por eventuais atentados à moral e aos bons costumes. Entre estes acontecimentos há uma coisa em comum - a censura do sexo e actividades relacionadas.

É fácil apontar o dedo ao polícia que apreendeu os livros ou à magistrada que proibiu as imagens de carnaval, mas temos de ir às causas profundas.

Sendo o sexo uma componente normalíssima do ser humano, dou comigo a reflectir o porquê deste anátema e do considerar-se tudo o que com ele se relaciona atentatório da moral e dos bons costumes.

Sabemos que a razão básica é da nossa tradição cultural e religiosa, mas, sendo o resumo da doutrina de Cristo "ama o próximo como a ti mesmo", e não sendo a actividade sexual, desde que consentida, agressiva para quem quer que seja, porquê a condenação?

Só encontro uma razão comum às chamadas religiões do "Livro" (Judaísmo e seus derivados Cristianismo e Islamismo) - o poder.

Os primeiros povos ligaram os fenómenos naturais a forças que não compreendiam e que relacionaram com "deuses". Nasciam as religiões e os homens que se arvoravam em intermediários entre os homens e essas divindades - os mágicos e sacerdotes, que tomaram logo um grande ascendente sobre os outros. Quando surgem indivíduos que se arrogam proprietários de terras e subjugam os outros pela força, aliam-se aos feiticeiros e sacerdotes para consolidação conjunta do poder.

Neste contexto, inventa-se um deus que tudo vê e fiscaliza permanentemente os actos dos humanos. Para controlo eficaz dos povos, nada melhor que controlar os seus instintos mais fortes, nomeadamente o da sobrevivência da espécie, o sexo, e o da sobrevivência pessoal, a alimentação. Talvez venham daí os preceitos religiosos, que depois se tornaram culturais, referentes às práticas sexuais e a certas dietas. É natural que inicialmente estes preceitos também tivessem intenções de saúde pública e controlo da natalidade.

Desta reflexão concluí que o sexo não pode ser atentatório da moral e dos bons costumes nem é minimamente razoável classificar e discriminar as pessoas pelas suas preferências nessa matéria. Alguém se lembraria de discriminar as pessoas por gostarem, ou não, de bacalhau ou por andarem, ou não, de patins? Então porquê o sexo?

O que é atentatório da moral e dos bons costumes é vermos que senhores que se apresentavam como exemplares modelos sociais não passam afinal de uma cambada de ladrões e vigaristas, é vermos "empresários" fecharem as empresas "à má fila" e deixarem os trabalhadores sem pão, é vermos o proliferar de "facadas nas costas" de colegas para subir nas carreiras.

Isso é que é atentatório da moral e dos bons costumes e não há notícia de "retiradas preventivas".

Estamos numa sociedade "sexófoba". É urgente mudar de paradigma.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Paranhos há 50 anos

O post anterior despertou-me as memórias e resolvi deixar um testemunho de como se vivia em Paranhos, Porto, pelo menos no polígono cemitério, Campo Lindo, Arca d' Água, Hospital de S. João, há mais de 50 anos.

Eu vivia na Rua Dionísio dos Santos Silva, no largo a que se chamava informalmente de Largo da Bouça. Não sei as razões de tal toponímia informal, mas existia a Viela da Bouça e julgo que estivesse relacionado com a bouça que existia entre a Rua da Asprela e as traseiras das casas do largo, onde hoje existe um bairro social. Frequentava a escola primária 35 no edifício da junta, que só ocupava o bloco central, sendo do lado de cima da rua a escola masculina e do lado de baixo a escola feminina. A sala da minha 4.ª classe (professor Joaquim Evangelista) era exactamente onde hoje é a secretaria da Junta. Em frente da escola havia uma fábrica que tinha dois corvos como guardas.

A vivência dessa área da cidade era mais aparentada com as suas origens maiatas que com a restante cidade. A minha rua era praticamente uma aldeia, com relações familiares entre muitas das pessoas, sendo a minha família uma das excepções. Só lá viviam desde 1945. Era uma zona de lavradores, onde circulavam pachorrentos carros de bois. Havia ainda artífices como os "pica-limas", que repicavam as limas usadas. Hoje nem se pensa nessa hipótese... Pegado à minha casa havia uma fábrica, primeiro tinturaria, depois de malhas. O largo estava ainda provido de duas mercearias-taberna com vasta freguesia, a do sr. Pereira (ex-Azeveda) e a do sr. Avelino.

A maioria das casas não tinha água canalizada nem saneamento. Iam buscar água ao fontanário, em frente da minha casa, e os esgotos iam para fossas. A casa onde eu vivia, mais urbana, tinha água canalizada e esgotos para uma fossa, que alguém clandestinamente abriu para as águas pluviais e rio da Manga, mas nem pensar em água quente. Nas festas populares, do Sto. António ao S. Pedro, havia bailarico no largo e algumas sessões de pancadaria com as bebedeiras correspondentes.

Quanto a profissões havia de tudo. Lavradores, picheleiros, electricistas, trolhas, polícias, oficiais militares, um artista de molduras, tipógrafo, enfermeiro, viajante, etc.

Um profissional que me ficou na memória foi o Tono Vareiro. Como a alcunha indica, vendia peixe com aquelas canastras enfiadas num pau, que devem ter sido herdadas dos chineses. À noite, andava com uma escada às costas a roubar roupa estendida nos quintais. Não roubava nada lá na rua. Como ainda não tinha aparecido a teoria da "sociedade de sucesso" do prof. Cavaco, até os ladrões tinham ética!

Hoje pergunto-me se o Tono seria mesmo um ladrão e raciocino: um tipo que rouba cuecas rotas, lençóis remendados e meias ponteadas (era o que havia!) não tem mesmo classe nenhuma, logo é um ladrão. Se roubasse milhões e os colocasse em off-shores seria um senhor de classe e até se arriscava a ser condecorado. O problema é que nesse tempo não havia off-shores...

Sempre vi o edifício do Hospital da Cidade (S. João), embora só abrisse em 1958. Por essa altura aprendi a andar de bicicleta nas obras de abertura da Rua Dr. António Bernardino de Almeida, a que chamávamos "avenida". Lembra-me que o dono daqueles terrenos, onde hoje corre essa rua e estão o ISEP e o bairro da Agra do Amial, se enforcou por não concordar com as condições da expropriação camarária. Terá sido por 1956. A minha rua acabava na Rua de S. Tomé, no Bairro da Azenha.

Quando o hospital abriu, era um "top" de modernidade. Tinha uma travesseirinha com rádio para cada cama, ligado a um sistema central e um sistema de procura de pessoas via rádio. Os médicos e enfermeiros-chefes tinham um aparelho semelhante a uma caneta que apitava quando houvesse necessidade de o contactarem. Dirigia-se ao telefone mais próximo e era informado pela central do que se passava. Um prodígio tecnológico para a época!

Passados 11 anos fui para lá trabalhar. As travesseirinhas já não tinham os rádios e do sistema de chamada só existiam as antenas em volta do edifício. O Estado nunca foi bom a manter o seu património.

Aqui fica o testemunho do lugar onde passei os meus primeiros 25 anos e onde ainda volto com saudade. Se alguém quiser dar mais achegas, agradeço.