Depois de ler o post http://palavras-cruzadas.blogspot.com/2009/03/ligacao-ferroviaria-figueira-da-foz.html, tendo sido durante vários anos utente do mesmo vai-vem, não resisto a comentar.
Vejamos o que se passou:
Umas senhoras recolheram durante a viagem assinaturas para um abaixo-assinado de protesto contra os recorrentes atrasos na linha Figueira da Foz - Coimbra. O revisor chamou a polícia, que respondeu à chamada, identificando as senhoras à chegada à Figueira da Foz, como organizadoras de um movimento, pelos vistos uma infracção legal.
Claro que logo apareceram os comentadores com acusações de fascismo, acção pidesca, etc., que só podem ser fruto de mentes seguidoras de ideias comunistas, anarquistas e outras ideias subversivas, bem como de organizadoras de campanhas negras.
Vejamos do que, em minha opinião, se trata:
A CP ( ou lá como se chama agora a empresa dos comboios), conhecedora do estado deficitário do turismo da Figueira da Foz e sabendo o chamariz de multidões que são as reconstituições históricas, resolveu dar uma ajudinha.
Já imaginaram as multidões que se deslocarão à Figueira, vindas da Austrália, Canadá, quiçá do Burkina-Faso, para verem e andarem num comboio que consegue fazer os míseros 50 Km da Figueira a Coimbra no tempo de 1h 06m, à estonteante velocidade média de 45 Km/h?
Assim, resolveram dar essa prenda à Figueira, com um comboio de há 50 anos atrás.
Então acreditam que um revisor, em 2009, ia chamar a polícia por alguém andar a recolher assinaturas? Claro que é uma reconstitução de algum "bufo" de há 50 anos!
Acreditam que a PSP da Figueira da Foz, a braços com traficantes de droga e outra bandidagem às dúzias, ia perder tempo a atender uma denúncia de "organização de movimento"? Obviamente que não. Os senhores fardados eram figurantes da já referida reconstituição!
Estão esclarecidos?
quinta-feira, 12 de março de 2009
domingo, 1 de março de 2009
Sexo, moral e bons costumes
Nas últimas semanas houve três acontecimentos que ocuparam as parangonas da comunicação social: as posições da Igreja sobre homossexualismo, a retirada das imagens de um carro de carnaval em Torres Vedras e a apreensão de livros em Braga por eventuais atentados à moral e aos bons costumes. Entre estes acontecimentos há uma coisa em comum - a censura do sexo e actividades relacionadas.
É fácil apontar o dedo ao polícia que apreendeu os livros ou à magistrada que proibiu as imagens de carnaval, mas temos de ir às causas profundas.
Sendo o sexo uma componente normalíssima do ser humano, dou comigo a reflectir o porquê deste anátema e do considerar-se tudo o que com ele se relaciona atentatório da moral e dos bons costumes.
Sabemos que a razão básica é da nossa tradição cultural e religiosa, mas, sendo o resumo da doutrina de Cristo "ama o próximo como a ti mesmo", e não sendo a actividade sexual, desde que consentida, agressiva para quem quer que seja, porquê a condenação?
Só encontro uma razão comum às chamadas religiões do "Livro" (Judaísmo e seus derivados Cristianismo e Islamismo) - o poder.
Os primeiros povos ligaram os fenómenos naturais a forças que não compreendiam e que relacionaram com "deuses". Nasciam as religiões e os homens que se arvoravam em intermediários entre os homens e essas divindades - os mágicos e sacerdotes, que tomaram logo um grande ascendente sobre os outros. Quando surgem indivíduos que se arrogam proprietários de terras e subjugam os outros pela força, aliam-se aos feiticeiros e sacerdotes para consolidação conjunta do poder.
Neste contexto, inventa-se um deus que tudo vê e fiscaliza permanentemente os actos dos humanos. Para controlo eficaz dos povos, nada melhor que controlar os seus instintos mais fortes, nomeadamente o da sobrevivência da espécie, o sexo, e o da sobrevivência pessoal, a alimentação. Talvez venham daí os preceitos religiosos, que depois se tornaram culturais, referentes às práticas sexuais e a certas dietas. É natural que inicialmente estes preceitos também tivessem intenções de saúde pública e controlo da natalidade.
Desta reflexão concluí que o sexo não pode ser atentatório da moral e dos bons costumes nem é minimamente razoável classificar e discriminar as pessoas pelas suas preferências nessa matéria. Alguém se lembraria de discriminar as pessoas por gostarem, ou não, de bacalhau ou por andarem, ou não, de patins? Então porquê o sexo?
O que é atentatório da moral e dos bons costumes é vermos que senhores que se apresentavam como exemplares modelos sociais não passam afinal de uma cambada de ladrões e vigaristas, é vermos "empresários" fecharem as empresas "à má fila" e deixarem os trabalhadores sem pão, é vermos o proliferar de "facadas nas costas" de colegas para subir nas carreiras.
Isso é que é atentatório da moral e dos bons costumes e não há notícia de "retiradas preventivas".
Estamos numa sociedade "sexófoba". É urgente mudar de paradigma.
É fácil apontar o dedo ao polícia que apreendeu os livros ou à magistrada que proibiu as imagens de carnaval, mas temos de ir às causas profundas.
Sendo o sexo uma componente normalíssima do ser humano, dou comigo a reflectir o porquê deste anátema e do considerar-se tudo o que com ele se relaciona atentatório da moral e dos bons costumes.
Sabemos que a razão básica é da nossa tradição cultural e religiosa, mas, sendo o resumo da doutrina de Cristo "ama o próximo como a ti mesmo", e não sendo a actividade sexual, desde que consentida, agressiva para quem quer que seja, porquê a condenação?
Só encontro uma razão comum às chamadas religiões do "Livro" (Judaísmo e seus derivados Cristianismo e Islamismo) - o poder.
Os primeiros povos ligaram os fenómenos naturais a forças que não compreendiam e que relacionaram com "deuses". Nasciam as religiões e os homens que se arvoravam em intermediários entre os homens e essas divindades - os mágicos e sacerdotes, que tomaram logo um grande ascendente sobre os outros. Quando surgem indivíduos que se arrogam proprietários de terras e subjugam os outros pela força, aliam-se aos feiticeiros e sacerdotes para consolidação conjunta do poder.
Neste contexto, inventa-se um deus que tudo vê e fiscaliza permanentemente os actos dos humanos. Para controlo eficaz dos povos, nada melhor que controlar os seus instintos mais fortes, nomeadamente o da sobrevivência da espécie, o sexo, e o da sobrevivência pessoal, a alimentação. Talvez venham daí os preceitos religiosos, que depois se tornaram culturais, referentes às práticas sexuais e a certas dietas. É natural que inicialmente estes preceitos também tivessem intenções de saúde pública e controlo da natalidade.
Desta reflexão concluí que o sexo não pode ser atentatório da moral e dos bons costumes nem é minimamente razoável classificar e discriminar as pessoas pelas suas preferências nessa matéria. Alguém se lembraria de discriminar as pessoas por gostarem, ou não, de bacalhau ou por andarem, ou não, de patins? Então porquê o sexo?
O que é atentatório da moral e dos bons costumes é vermos que senhores que se apresentavam como exemplares modelos sociais não passam afinal de uma cambada de ladrões e vigaristas, é vermos "empresários" fecharem as empresas "à má fila" e deixarem os trabalhadores sem pão, é vermos o proliferar de "facadas nas costas" de colegas para subir nas carreiras.
Isso é que é atentatório da moral e dos bons costumes e não há notícia de "retiradas preventivas".
Estamos numa sociedade "sexófoba". É urgente mudar de paradigma.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
Paranhos há 50 anos
O post anterior despertou-me as memórias e resolvi deixar um testemunho de como se vivia em Paranhos, Porto, pelo menos no polígono cemitério, Campo Lindo, Arca d' Água, Hospital de S. João, há mais de 50 anos.
Eu vivia na Rua Dionísio dos Santos Silva, no largo a que se chamava informalmente de Largo da Bouça. Não sei as razões de tal toponímia informal, mas existia a Viela da Bouça e julgo que estivesse relacionado com a bouça que existia entre a Rua da Asprela e as traseiras das casas do largo, onde hoje existe um bairro social. Frequentava a escola primária 35 no edifício da junta, que só ocupava o bloco central, sendo do lado de cima da rua a escola masculina e do lado de baixo a escola feminina. A sala da minha 4.ª classe (professor Joaquim Evangelista) era exactamente onde hoje é a secretaria da Junta. Em frente da escola havia uma fábrica que tinha dois corvos como guardas.
A vivência dessa área da cidade era mais aparentada com as suas origens maiatas que com a restante cidade. A minha rua era praticamente uma aldeia, com relações familiares entre muitas das pessoas, sendo a minha família uma das excepções. Só lá viviam desde 1945. Era uma zona de lavradores, onde circulavam pachorrentos carros de bois. Havia ainda artífices como os "pica-limas", que repicavam as limas usadas. Hoje nem se pensa nessa hipótese... Pegado à minha casa havia uma fábrica, primeiro tinturaria, depois de malhas. O largo estava ainda provido de duas mercearias-taberna com vasta freguesia, a do sr. Pereira (ex-Azeveda) e a do sr. Avelino.
A maioria das casas não tinha água canalizada nem saneamento. Iam buscar água ao fontanário, em frente da minha casa, e os esgotos iam para fossas. A casa onde eu vivia, mais urbana, tinha água canalizada e esgotos para uma fossa, que alguém clandestinamente abriu para as águas pluviais e rio da Manga, mas nem pensar em água quente. Nas festas populares, do Sto. António ao S. Pedro, havia bailarico no largo e algumas sessões de pancadaria com as bebedeiras correspondentes.
Quanto a profissões havia de tudo. Lavradores, picheleiros, electricistas, trolhas, polícias, oficiais militares, um artista de molduras, tipógrafo, enfermeiro, viajante, etc.
Um profissional que me ficou na memória foi o Tono Vareiro. Como a alcunha indica, vendia peixe com aquelas canastras enfiadas num pau, que devem ter sido herdadas dos chineses. À noite, andava com uma escada às costas a roubar roupa estendida nos quintais. Não roubava nada lá na rua. Como ainda não tinha aparecido a teoria da "sociedade de sucesso" do prof. Cavaco, até os ladrões tinham ética!
Hoje pergunto-me se o Tono seria mesmo um ladrão e raciocino: um tipo que rouba cuecas rotas, lençóis remendados e meias ponteadas (era o que havia!) não tem mesmo classe nenhuma, logo é um ladrão. Se roubasse milhões e os colocasse em off-shores seria um senhor de classe e até se arriscava a ser condecorado. O problema é que nesse tempo não havia off-shores...
Sempre vi o edifício do Hospital da Cidade (S. João), embora só abrisse em 1958. Por essa altura aprendi a andar de bicicleta nas obras de abertura da Rua Dr. António Bernardino de Almeida, a que chamávamos "avenida". Lembra-me que o dono daqueles terrenos, onde hoje corre essa rua e estão o ISEP e o bairro da Agra do Amial, se enforcou por não concordar com as condições da expropriação camarária. Terá sido por 1956. A minha rua acabava na Rua de S. Tomé, no Bairro da Azenha.
Quando o hospital abriu, era um "top" de modernidade. Tinha uma travesseirinha com rádio para cada cama, ligado a um sistema central e um sistema de procura de pessoas via rádio. Os médicos e enfermeiros-chefes tinham um aparelho semelhante a uma caneta que apitava quando houvesse necessidade de o contactarem. Dirigia-se ao telefone mais próximo e era informado pela central do que se passava. Um prodígio tecnológico para a época!
Passados 11 anos fui para lá trabalhar. As travesseirinhas já não tinham os rádios e do sistema de chamada só existiam as antenas em volta do edifício. O Estado nunca foi bom a manter o seu património.
Aqui fica o testemunho do lugar onde passei os meus primeiros 25 anos e onde ainda volto com saudade. Se alguém quiser dar mais achegas, agradeço.
Eu vivia na Rua Dionísio dos Santos Silva, no largo a que se chamava informalmente de Largo da Bouça. Não sei as razões de tal toponímia informal, mas existia a Viela da Bouça e julgo que estivesse relacionado com a bouça que existia entre a Rua da Asprela e as traseiras das casas do largo, onde hoje existe um bairro social. Frequentava a escola primária 35 no edifício da junta, que só ocupava o bloco central, sendo do lado de cima da rua a escola masculina e do lado de baixo a escola feminina. A sala da minha 4.ª classe (professor Joaquim Evangelista) era exactamente onde hoje é a secretaria da Junta. Em frente da escola havia uma fábrica que tinha dois corvos como guardas.
A vivência dessa área da cidade era mais aparentada com as suas origens maiatas que com a restante cidade. A minha rua era praticamente uma aldeia, com relações familiares entre muitas das pessoas, sendo a minha família uma das excepções. Só lá viviam desde 1945. Era uma zona de lavradores, onde circulavam pachorrentos carros de bois. Havia ainda artífices como os "pica-limas", que repicavam as limas usadas. Hoje nem se pensa nessa hipótese... Pegado à minha casa havia uma fábrica, primeiro tinturaria, depois de malhas. O largo estava ainda provido de duas mercearias-taberna com vasta freguesia, a do sr. Pereira (ex-Azeveda) e a do sr. Avelino.
A maioria das casas não tinha água canalizada nem saneamento. Iam buscar água ao fontanário, em frente da minha casa, e os esgotos iam para fossas. A casa onde eu vivia, mais urbana, tinha água canalizada e esgotos para uma fossa, que alguém clandestinamente abriu para as águas pluviais e rio da Manga, mas nem pensar em água quente. Nas festas populares, do Sto. António ao S. Pedro, havia bailarico no largo e algumas sessões de pancadaria com as bebedeiras correspondentes.
Quanto a profissões havia de tudo. Lavradores, picheleiros, electricistas, trolhas, polícias, oficiais militares, um artista de molduras, tipógrafo, enfermeiro, viajante, etc.
Um profissional que me ficou na memória foi o Tono Vareiro. Como a alcunha indica, vendia peixe com aquelas canastras enfiadas num pau, que devem ter sido herdadas dos chineses. À noite, andava com uma escada às costas a roubar roupa estendida nos quintais. Não roubava nada lá na rua. Como ainda não tinha aparecido a teoria da "sociedade de sucesso" do prof. Cavaco, até os ladrões tinham ética!
Hoje pergunto-me se o Tono seria mesmo um ladrão e raciocino: um tipo que rouba cuecas rotas, lençóis remendados e meias ponteadas (era o que havia!) não tem mesmo classe nenhuma, logo é um ladrão. Se roubasse milhões e os colocasse em off-shores seria um senhor de classe e até se arriscava a ser condecorado. O problema é que nesse tempo não havia off-shores...
Sempre vi o edifício do Hospital da Cidade (S. João), embora só abrisse em 1958. Por essa altura aprendi a andar de bicicleta nas obras de abertura da Rua Dr. António Bernardino de Almeida, a que chamávamos "avenida". Lembra-me que o dono daqueles terrenos, onde hoje corre essa rua e estão o ISEP e o bairro da Agra do Amial, se enforcou por não concordar com as condições da expropriação camarária. Terá sido por 1956. A minha rua acabava na Rua de S. Tomé, no Bairro da Azenha.
Quando o hospital abriu, era um "top" de modernidade. Tinha uma travesseirinha com rádio para cada cama, ligado a um sistema central e um sistema de procura de pessoas via rádio. Os médicos e enfermeiros-chefes tinham um aparelho semelhante a uma caneta que apitava quando houvesse necessidade de o contactarem. Dirigia-se ao telefone mais próximo e era informado pela central do que se passava. Um prodígio tecnológico para a época!
Passados 11 anos fui para lá trabalhar. As travesseirinhas já não tinham os rádios e do sistema de chamada só existiam as antenas em volta do edifício. O Estado nunca foi bom a manter o seu património.
Aqui fica o testemunho do lugar onde passei os meus primeiros 25 anos e onde ainda volto com saudade. Se alguém quiser dar mais achegas, agradeço.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
3 de Fevereiro de 1927
Neste post não se pretende historiar a revolta de 3 de Fevereiro de 1927, mas somente registar a visão de quem viveu os acontecimentos por dentro e involuntariamente. O resto é para os historiadores.
Nessa noite o cabo Faria chefiava a guarda ao Hospital Militar do Porto. Fazia 1 ano que tinha assentado praça e tinha-lhe sido fácil ascender àquele posto por ter habilitações literárias razoavelmente superiores às dos seus camaradas soldados. Tinha o 4.º ano de Comércio do Colégio Almeida Garrett. Recebeu ordens para regressar imediatamente com os seus homens ao quartel do regimento de Infantaria 18, a que sempre pertencera, ali na Praça da República.
Quando chegou ao quartel, distribuíam-se munições a toda a gente e, como tinha a especialidade de apontador da metralhadora Lewis, foi-lhe dada ordem para avançar com uma força que ia para o Jardim da Moreda, na rua Santos Pousada.
Entretanto foi apreendida uma moto com side-car e, não havendo condutor, foi perguntado quem estava habilitado a conduzir aquilo. Como tinha carta de moto, o cabo Faria deixou a metralhadora e foi fazer aquilo que era a sua diversão preferida: andar de moto. Seguiu outro com a metralhadora.
Recebeu ordens para conduzir um oficial e lá foi ele para o Quartel General, ali junto à Batalha, onde já se começavam a cavar trincheiras debaixo do fogo da Artilharia da Serra do Pilar.
Da Batalha seguiu com o oficial para Metralhadoras 3, ali em frente ao palácio dos Carrancas, hoje Museu Soares dos Reis, onde lhe comunicaram que estava preso e teria de trabalhar para os novos chefes, distribuindo aguardente pelas trincheiras.
Destino de soldado! Já era a segunda vez que lhe acontecia mudar de campo nestas coisas das revoluções. A primeira tinha sido poucos meses antes, em 28 de Maio de 1926, quando tinha ido com o seu regimento para Norte, a fim de combater as tropas revoltosas de Gomes da Costa e, depois de ir a pé até Famalicão, voltar ao Porto integrado nas tropas que ia combater. O seu regimento tinha mudado de chefe. Como continuava a andar de moto, tudo bem. O resto era lá com os políticos...
Correu a notícia de que o apontador da metralhadora na rua de Santos Pousada tinha morrido. A palmeira ali existente, ainda hoje mostra as marcas das balas. Alguém que não tinha sabido da história da moto foi dizer à mãe do cabo Faria da sua morte. A senhora e a filha vestiram o correspondente luto.
Continuou com a distribuição do suplemento de aquecimento naquelas noites frias pelas trincheiras instaladas, nomeadamente na Praça da Batalha, onde os revoltosos instalaram o seu comando no teatro S. João.
O frio era muito e os silvos das munições e as explosões eram um ruído constante. Cadáveres por toda a baixa. No cruzamento das ruas de Antero de Quental e Constituição o residente no andar por cima da farmácia Maciel veio à varanda ver a revolução. Uma granada de artilharia arrancou-lhe a cabeça. Um esquadrão de Cavalaria 7, de Aveiro, entrou a galope na ponte D. Luís, aos vivas à revolução, pensando enganar os revoltosos entrincheirados à saída da ponte. Foram dizimados à metralhadora. Cavalos feridos e espavoridos espalharam-se pelas ruas circundantes.
O motociclista, numa vaga, lá conseguiu visitar a mãe na Rua da Alegria, onde desfez o equívoco da sua morte.
No dia 7 deu-se a rendição dos revoltosos e o cabo voltou ao seu regimento, onde foi detido (já ia sendo hábito!) e acusado de colaborar com os revoltosos, arriscando-se a ser deportado com os outros. Valeu-lhe a honestidade do oficial, também preso, que declarou ter estado sempre às ordens dele e ser ele o responsável. Nesse tempo, os chefes sabiam sê-lo e assumiam as suas responsabilidades!
Tudo isto me foi contado diversas vezes pelo cabo Faria, meu pai, que fez 49 anos de serviço militar efectivo, para demonstrar a monstruosidade de uma guerra, muito mais de uma guerra civil. É em memória dele que aqui fica o testemunho.
Nessa noite o cabo Faria chefiava a guarda ao Hospital Militar do Porto. Fazia 1 ano que tinha assentado praça e tinha-lhe sido fácil ascender àquele posto por ter habilitações literárias razoavelmente superiores às dos seus camaradas soldados. Tinha o 4.º ano de Comércio do Colégio Almeida Garrett. Recebeu ordens para regressar imediatamente com os seus homens ao quartel do regimento de Infantaria 18, a que sempre pertencera, ali na Praça da República.
Quando chegou ao quartel, distribuíam-se munições a toda a gente e, como tinha a especialidade de apontador da metralhadora Lewis, foi-lhe dada ordem para avançar com uma força que ia para o Jardim da Moreda, na rua Santos Pousada.
Entretanto foi apreendida uma moto com side-car e, não havendo condutor, foi perguntado quem estava habilitado a conduzir aquilo. Como tinha carta de moto, o cabo Faria deixou a metralhadora e foi fazer aquilo que era a sua diversão preferida: andar de moto. Seguiu outro com a metralhadora.
Recebeu ordens para conduzir um oficial e lá foi ele para o Quartel General, ali junto à Batalha, onde já se começavam a cavar trincheiras debaixo do fogo da Artilharia da Serra do Pilar.
Da Batalha seguiu com o oficial para Metralhadoras 3, ali em frente ao palácio dos Carrancas, hoje Museu Soares dos Reis, onde lhe comunicaram que estava preso e teria de trabalhar para os novos chefes, distribuindo aguardente pelas trincheiras.
Destino de soldado! Já era a segunda vez que lhe acontecia mudar de campo nestas coisas das revoluções. A primeira tinha sido poucos meses antes, em 28 de Maio de 1926, quando tinha ido com o seu regimento para Norte, a fim de combater as tropas revoltosas de Gomes da Costa e, depois de ir a pé até Famalicão, voltar ao Porto integrado nas tropas que ia combater. O seu regimento tinha mudado de chefe. Como continuava a andar de moto, tudo bem. O resto era lá com os políticos...
Correu a notícia de que o apontador da metralhadora na rua de Santos Pousada tinha morrido. A palmeira ali existente, ainda hoje mostra as marcas das balas. Alguém que não tinha sabido da história da moto foi dizer à mãe do cabo Faria da sua morte. A senhora e a filha vestiram o correspondente luto.
Continuou com a distribuição do suplemento de aquecimento naquelas noites frias pelas trincheiras instaladas, nomeadamente na Praça da Batalha, onde os revoltosos instalaram o seu comando no teatro S. João.
O frio era muito e os silvos das munições e as explosões eram um ruído constante. Cadáveres por toda a baixa. No cruzamento das ruas de Antero de Quental e Constituição o residente no andar por cima da farmácia Maciel veio à varanda ver a revolução. Uma granada de artilharia arrancou-lhe a cabeça. Um esquadrão de Cavalaria 7, de Aveiro, entrou a galope na ponte D. Luís, aos vivas à revolução, pensando enganar os revoltosos entrincheirados à saída da ponte. Foram dizimados à metralhadora. Cavalos feridos e espavoridos espalharam-se pelas ruas circundantes.
O motociclista, numa vaga, lá conseguiu visitar a mãe na Rua da Alegria, onde desfez o equívoco da sua morte.
No dia 7 deu-se a rendição dos revoltosos e o cabo voltou ao seu regimento, onde foi detido (já ia sendo hábito!) e acusado de colaborar com os revoltosos, arriscando-se a ser deportado com os outros. Valeu-lhe a honestidade do oficial, também preso, que declarou ter estado sempre às ordens dele e ser ele o responsável. Nesse tempo, os chefes sabiam sê-lo e assumiam as suas responsabilidades!
Tudo isto me foi contado diversas vezes pelo cabo Faria, meu pai, que fez 49 anos de serviço militar efectivo, para demonstrar a monstruosidade de uma guerra, muito mais de uma guerra civil. É em memória dele que aqui fica o testemunho.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Estupidez 24
Os noticiários de hoje da RTP, além dos discursos fortes, inteligentes e humanos do novo presidente Obama, brindaram-nos, por oposição, com declarações fracas, estúpidas e desumanas de um senhor que pelos jeitos é administrador da empresa adjudicatária do serviço Saúde 24.
De resto, nos mesmos noticiários, o sr. Director-Geral da Saúde já tinha classificado os administradores de tal empresa de "incompetentes para lidar com enfermeiros".
Argumentam os enfermeiros despedidos, ao que parece por fraca produtividade, que não podem cumprir com os curtos tempos de atendimento determinados pela empresa por, em obediência à sua consciência profissional, necessitarem de recolher todo um conjunto de informações sobre os utentes, que lhes permita um aconselhamento consciente.
Argumenta o tal senhor administrador que "os operadores têm obrigação de fazer o que lhes mandam e mais nada!", mais argumentando que cumpre escrupulosamente o contratado com o Estado. Estão os profissionais de enfermagem reduzidos à condição de telefonistas de "call center"!
Ora aqui está a demonstração da ignorância do senhor: os doentes não se tratam com ordenamentos jurídicos, mas com competência profissional de quem tem competência para o fazer.
Daqui fica também uma boa amostra das consequências das parcerias público-privadas na saúde tão propagandeadas pelo governo. É sabido que às empresas só interessa o lucro e que, quando misturamos lucro com tratamento de doentes sem o devido controlo, quem perde são os doentes.
Bem podem limpar as mãos à parede!
De resto, nos mesmos noticiários, o sr. Director-Geral da Saúde já tinha classificado os administradores de tal empresa de "incompetentes para lidar com enfermeiros".
Argumentam os enfermeiros despedidos, ao que parece por fraca produtividade, que não podem cumprir com os curtos tempos de atendimento determinados pela empresa por, em obediência à sua consciência profissional, necessitarem de recolher todo um conjunto de informações sobre os utentes, que lhes permita um aconselhamento consciente.
Argumenta o tal senhor administrador que "os operadores têm obrigação de fazer o que lhes mandam e mais nada!", mais argumentando que cumpre escrupulosamente o contratado com o Estado. Estão os profissionais de enfermagem reduzidos à condição de telefonistas de "call center"!
Ora aqui está a demonstração da ignorância do senhor: os doentes não se tratam com ordenamentos jurídicos, mas com competência profissional de quem tem competência para o fazer.
Daqui fica também uma boa amostra das consequências das parcerias público-privadas na saúde tão propagandeadas pelo governo. É sabido que às empresas só interessa o lucro e que, quando misturamos lucro com tratamento de doentes sem o devido controlo, quem perde são os doentes.
Bem podem limpar as mãos à parede!
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
O estado da Nação
No debate na Assembleia da República da passada quarta-feira, houve dois factos que me deram que pensar.
Um foi anunciada a criação de um banco nacional de células estaminais. Nada mais acertado nesta ocasião. Embora de imediato possa parecer não ter grande utilidade, dada a ainda incipiente utilização da medicina molecular, é a medicina do futuro e convém que existam as reservas quando tais tratamentos se generalizarem.
Não me espanta que apareçam agora as empresas já detentoras do rendoso negócio (cerca de 1.000 € por colheita) a acusarem o Estado de concorrência desleal, como acontece com os notários.
Outro facto foi o plágio do sr. primeiro-ministro ao dr. Durão Barroso quando deselegantemente pôs em causa a legitimidade de uma deputada dos Verdes. Será que também se quer candidatar a um lugarzito na UE?
É que são tantas as semelhanças, desde a hostilidade para com os funcionários públicos, às atitudes arrogantes, que já só lhe falta arranjar um nome de peixe. Os outros nomes também já lhos chamámos todos....
Um foi anunciada a criação de um banco nacional de células estaminais. Nada mais acertado nesta ocasião. Embora de imediato possa parecer não ter grande utilidade, dada a ainda incipiente utilização da medicina molecular, é a medicina do futuro e convém que existam as reservas quando tais tratamentos se generalizarem.
Não me espanta que apareçam agora as empresas já detentoras do rendoso negócio (cerca de 1.000 € por colheita) a acusarem o Estado de concorrência desleal, como acontece com os notários.
Outro facto foi o plágio do sr. primeiro-ministro ao dr. Durão Barroso quando deselegantemente pôs em causa a legitimidade de uma deputada dos Verdes. Será que também se quer candidatar a um lugarzito na UE?
É que são tantas as semelhanças, desde a hostilidade para com os funcionários públicos, às atitudes arrogantes, que já só lhe falta arranjar um nome de peixe. Os outros nomes também já lhos chamámos todos....
sábado, 3 de janeiro de 2009
Uma réstia de esperança
Ílhavo. Hoje à tarde.
Um cão, com olhos de Husky, está enrolado no passeio, todo molhado, a tremer de sofrimento, com um olhar de quem pede ajuda. Talvez tenha sido atropelado.
Juntam-se pessoas. Uma arranja carne e água numa loja próxima. O animal devora rapidamente a carne e parece mais calmo. Outra corre à clínica veterinária ali perto. Está fechada, mas tem um número de contacto urgente. Telefona-se ao médico, que aparece passados alguns minutos. Entretanto alguém chamou também os serviços da Câmara Municipal, que não tardam.
Leva-se o corpulento cão na carrinha da Câmara para a clínica, onde é observado e medicado. O médico aconselha a que seja mantido em ambiente morno, pelo menos deitado sobre uma manta ou jornais, não havendo condições logísticas para que fique na clínica. Resta o canil camarário, mas os solícitos funcionários informam não haver mantas para o ter. Logo uma vizinha dá umas mantas velhas que tinha lá em casa. A carrinha leva-o, antes que acabe o efeito da anestesia que foi necessária.
Um dos presentes paga ao médico, que só aceitou o valor dos medicamentos aplicados.
Digam lá que, neste início de um ano que se prevê difícil, isto não é uma réstia de esperança!
À mesma hora a que, na Faixa de Gaza, homens, ainda parentes, se matavam barbaramente, em Ílhavo gera-se uma corrente de solidariedade em volta de um pobre cão. A Câmara e os moradores juntam os braços para minorar o sofrimento do "irmão cão", sem perguntar quem paga o quê ou a quem pertence o cão.
É este espírito que pode salvar o mundo. Vamos cultivá-lo!
Um cão, com olhos de Husky, está enrolado no passeio, todo molhado, a tremer de sofrimento, com um olhar de quem pede ajuda. Talvez tenha sido atropelado.
Juntam-se pessoas. Uma arranja carne e água numa loja próxima. O animal devora rapidamente a carne e parece mais calmo. Outra corre à clínica veterinária ali perto. Está fechada, mas tem um número de contacto urgente. Telefona-se ao médico, que aparece passados alguns minutos. Entretanto alguém chamou também os serviços da Câmara Municipal, que não tardam.
Leva-se o corpulento cão na carrinha da Câmara para a clínica, onde é observado e medicado. O médico aconselha a que seja mantido em ambiente morno, pelo menos deitado sobre uma manta ou jornais, não havendo condições logísticas para que fique na clínica. Resta o canil camarário, mas os solícitos funcionários informam não haver mantas para o ter. Logo uma vizinha dá umas mantas velhas que tinha lá em casa. A carrinha leva-o, antes que acabe o efeito da anestesia que foi necessária.
Um dos presentes paga ao médico, que só aceitou o valor dos medicamentos aplicados.
Digam lá que, neste início de um ano que se prevê difícil, isto não é uma réstia de esperança!
À mesma hora a que, na Faixa de Gaza, homens, ainda parentes, se matavam barbaramente, em Ílhavo gera-se uma corrente de solidariedade em volta de um pobre cão. A Câmara e os moradores juntam os braços para minorar o sofrimento do "irmão cão", sem perguntar quem paga o quê ou a quem pertence o cão.
É este espírito que pode salvar o mundo. Vamos cultivá-lo!
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Do Natal e suas mensagens
Estamos naquela época do ano em que quase todos os povos do hemisfério Norte festejam o solstício de Inverno e consequente renovação da Natureza com os dias a crescerem. É a festa do Sol e da luz.
A Igreja Cristã escolheu esta época para situar o nascimento de Cristo, associado à nova luz do mundo. É irrelevante a data exacta do nascimento. O importante é a sua mensagem e os seus actos.
Também é a época em que tradicionalmente se festejam a família e a solidariedade, desdobrando-se os políticos em apologias dos velhinhos, a que não ligaram peva todo o ano, dos desempregados, cujo desemprego não quiseram evitar a bem da economia, e dos meninos coitadinhos, mas a cujos pais não se dão as condições para deles cuidarem.
De entre todas as já fastidiosas, por repetidas, mensagens, sobressaiu uma, curiosamente de um "inimigo" do cristianismo, o islâmico fundamentalista presidente do Irão, que pôs a pergunta que todos os que se intitulam cristãos deveriam pôr a cada hora do dia: "Se Cristo vivesse agora, que posição tomaria perante os problemas actuais?"
Por uma pergunta semelhante foi S. Francisco de Assis considerado herético, escapando por pouco à correspondente execução.
Sim. Que posição tomaria ao ver a sua doutrina transformada em Igreja institucional pelo imperador Constantino para servir de cimento agregador do império a desmoronar-se. Não seria "dar a César o que é de Deus"?
Que posição tomaria ao ver praticar em seu nome os roubos, violações e atrocidades dos cruzados medievais que, em nome da religião, só pretendiam o saque e as honrarias cavaleirescas?
Que posição tomaria ao ver, em seu nome, os genocídios da Santa Inquisição?
Que posição tomaria perante empresários que se intitulam seus fervorosos servidores e não esitam em roubar escandalosamente aqueles que neles confiam?
Certamente apoiaria homens como Francisco de Assis, António Vieira e os padres da "Igreja da Libertação" da América do Sul.
Pensemos nisto e certamente contribuiremos para um melhor 2009.
FELIZ ANO NOVO!
A Igreja Cristã escolheu esta época para situar o nascimento de Cristo, associado à nova luz do mundo. É irrelevante a data exacta do nascimento. O importante é a sua mensagem e os seus actos.
Também é a época em que tradicionalmente se festejam a família e a solidariedade, desdobrando-se os políticos em apologias dos velhinhos, a que não ligaram peva todo o ano, dos desempregados, cujo desemprego não quiseram evitar a bem da economia, e dos meninos coitadinhos, mas a cujos pais não se dão as condições para deles cuidarem.
De entre todas as já fastidiosas, por repetidas, mensagens, sobressaiu uma, curiosamente de um "inimigo" do cristianismo, o islâmico fundamentalista presidente do Irão, que pôs a pergunta que todos os que se intitulam cristãos deveriam pôr a cada hora do dia: "Se Cristo vivesse agora, que posição tomaria perante os problemas actuais?"
Por uma pergunta semelhante foi S. Francisco de Assis considerado herético, escapando por pouco à correspondente execução.
Sim. Que posição tomaria ao ver a sua doutrina transformada em Igreja institucional pelo imperador Constantino para servir de cimento agregador do império a desmoronar-se. Não seria "dar a César o que é de Deus"?
Que posição tomaria ao ver praticar em seu nome os roubos, violações e atrocidades dos cruzados medievais que, em nome da religião, só pretendiam o saque e as honrarias cavaleirescas?
Que posição tomaria ao ver, em seu nome, os genocídios da Santa Inquisição?
Que posição tomaria perante empresários que se intitulam seus fervorosos servidores e não esitam em roubar escandalosamente aqueles que neles confiam?
Certamente apoiaria homens como Francisco de Assis, António Vieira e os padres da "Igreja da Libertação" da América do Sul.
Pensemos nisto e certamente contribuiremos para um melhor 2009.
FELIZ ANO NOVO!
sábado, 29 de novembro de 2008
Vamos falar de avaliações e carreiras
Desde 2002 que os sucessivos governos se têm afadigado a injectar na população a "verdade oficial" de que anteriormente os funcionários públicos não eram avaliados e que agora surge a salvação da Pátria e, quem sabe, do próprio planeta, com o estabelecimento do sistema SIADAP, o sistema de avaliação dos professores e respectivas cotas (questão de fé!).
Ora vamos lá analisar a verdade dos factos. É que eu aprendi a não gostar de verdades oficiais.
Antes do governo do dr. Barroso, os funcionários eram já avaliados há muitos anos. Todos os anos as chefias preenchiam uma ficha de avaliação dos seus subordinados, onde eram avaliados os parâmetros qualidade de trabalho, quantidade de trabalho, aperfeiçoamento, assiduidade e pontualidade, responsabilidade, iniciativa e criatividade, relações com o público, relações humanas no trabalho, respeito pela segurança, conservação do material e capacidade de direcção, sendo retirados os parâmetros que não se aplicavam ao funcionário em concreto.
A cada parâmetro correspondiam 5 perguntas objectivas, que permitiam a classificação de 1 a 10. Ao fim, fazia-se a média das classificações, sendo que se classificava de BOM quem tivesse 6 ou mais e MUITO BOM acima de 9.
Só quem fosse classificado de BOM poderia progredir na carreira, tanto a nível de escalões (que substituíram as diuturnidades e a que asneaticamente chamam de promoções automáticas) quer de acesso a concurso para promoção. O MUITO BOM implicava diminuição de 1 ano no tempo na categoria para ter acesso a concurso de promoção.
Nesse tempo, que se teima em classificar de "balda", as promoções na carreira eram por concurso e não por cartão partidário ou simpatia das chefias.
Claro que se poderá arguir que 60% é pouco para se ser considerado BOM. Concordo plenamente com os que assim pensarem. Deveria ter-se criado a classificação de SUFICIENTE entre os 50 e os 70% e o BOM só daí para cima.
O governo do dr. Barroso, com a responsabilidade directa da dr.ª Ferreira Leite (que nunca esqueça!), na sua fúria privatista, impôs a aplicação de um sistema vindo da indústria e do comércio, o SIADAP, que nunca se conseguiu aplicar decentemente e duvido muito que se consiga. É que os objectivos de uma actividade privada, obviamente virada para o lucro e para fazer o cliente consumir o mais possível, não podem aplicar-se a serviços públicos, cuja função é servir as necessidades dos utentes com a máxima economia possível.
Por outro lado, com a finalidade óbvia de escolher quem progride na carreira, criaram-se as famigeradas "cotas" de avaliação, que introduzem logo à partida um enviesamento na seriedade do sistema. Quando se impõem limites à quantidade de determinada classificação, está-se logo a introduzir a mais abjecta injustiça.
Se à entrada de um exame um professor dissesse aos examinandos: "- Independentemente do que fizerem, só 25% é que podem ter mais que 16", que lhe chamavam? Eu chamava-lhe vigarista!
Argumentam os defensores de tão estranha coisa que, se não fosse assim, eram todos promovidos. Asneira! Todas as carreiras tinham determinado número de lugares em cada categoria. Como havia concursos, só os melhores eram promovidos, se e quando houvesse vagas.
Claro que concordo que todas as carreiras tenham diversas categorias, incluindo os professores, uma vez que, como é natural, as pessoas vão aumentando as suas competências com a experiência profissional. Não conheço nenhum exército só de generais...
Julgo ter contribuído para a reposição da verdade, sendo que os factos que relato podem ser verificados por qualquer um que o queira fazer. É só ir ver às leis.
Ora vamos lá analisar a verdade dos factos. É que eu aprendi a não gostar de verdades oficiais.
Antes do governo do dr. Barroso, os funcionários eram já avaliados há muitos anos. Todos os anos as chefias preenchiam uma ficha de avaliação dos seus subordinados, onde eram avaliados os parâmetros qualidade de trabalho, quantidade de trabalho, aperfeiçoamento, assiduidade e pontualidade, responsabilidade, iniciativa e criatividade, relações com o público, relações humanas no trabalho, respeito pela segurança, conservação do material e capacidade de direcção, sendo retirados os parâmetros que não se aplicavam ao funcionário em concreto.
A cada parâmetro correspondiam 5 perguntas objectivas, que permitiam a classificação de 1 a 10. Ao fim, fazia-se a média das classificações, sendo que se classificava de BOM quem tivesse 6 ou mais e MUITO BOM acima de 9.
Só quem fosse classificado de BOM poderia progredir na carreira, tanto a nível de escalões (que substituíram as diuturnidades e a que asneaticamente chamam de promoções automáticas) quer de acesso a concurso para promoção. O MUITO BOM implicava diminuição de 1 ano no tempo na categoria para ter acesso a concurso de promoção.
Nesse tempo, que se teima em classificar de "balda", as promoções na carreira eram por concurso e não por cartão partidário ou simpatia das chefias.
Claro que se poderá arguir que 60% é pouco para se ser considerado BOM. Concordo plenamente com os que assim pensarem. Deveria ter-se criado a classificação de SUFICIENTE entre os 50 e os 70% e o BOM só daí para cima.
O governo do dr. Barroso, com a responsabilidade directa da dr.ª Ferreira Leite (que nunca esqueça!), na sua fúria privatista, impôs a aplicação de um sistema vindo da indústria e do comércio, o SIADAP, que nunca se conseguiu aplicar decentemente e duvido muito que se consiga. É que os objectivos de uma actividade privada, obviamente virada para o lucro e para fazer o cliente consumir o mais possível, não podem aplicar-se a serviços públicos, cuja função é servir as necessidades dos utentes com a máxima economia possível.
Por outro lado, com a finalidade óbvia de escolher quem progride na carreira, criaram-se as famigeradas "cotas" de avaliação, que introduzem logo à partida um enviesamento na seriedade do sistema. Quando se impõem limites à quantidade de determinada classificação, está-se logo a introduzir a mais abjecta injustiça.
Se à entrada de um exame um professor dissesse aos examinandos: "- Independentemente do que fizerem, só 25% é que podem ter mais que 16", que lhe chamavam? Eu chamava-lhe vigarista!
Argumentam os defensores de tão estranha coisa que, se não fosse assim, eram todos promovidos. Asneira! Todas as carreiras tinham determinado número de lugares em cada categoria. Como havia concursos, só os melhores eram promovidos, se e quando houvesse vagas.
Claro que concordo que todas as carreiras tenham diversas categorias, incluindo os professores, uma vez que, como é natural, as pessoas vão aumentando as suas competências com a experiência profissional. Não conheço nenhum exército só de generais...
Julgo ter contribuído para a reposição da verdade, sendo que os factos que relato podem ser verificados por qualquer um que o queira fazer. É só ir ver às leis.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Integracionismo, multiculturalismo e interculturalismo
Acontecimentos de um passado relativamente recente envolvendo indivíduos de origens culturais diferentes, principalmente na região da Grande Lisboa, trouxeram a terreiro defensores dos mais variados conceitos, que podemos agrupar nos três que constituem o título desta reflexão: integracionismo, multiculturalismo e interculturalismo.
Vou tentar analisar a viabilidade e utilidade prática de cada um.
Os integracionistas radicais defendem que todos os indivíduos de origem cultural diferente da da maioria estabelecida, devem integrar-se totalmente na prática, usos e costumes dessa maioria, com abandono, e até repúdio, da sua herança cultural. Em extremo, todos deveriam passar a gostar de bacalhau com batatas e couratos e ser cristãos. Foi o exemplo pouco edificante da Santa Inquisição e é a prática, não mais edificante, dos regimes ditatoriais, portanto a rejeitar.
Por outro lado, os defensores radicais do multiculturalismo defenderão que cada um actue de acordo com a sua origem cultural. Para isto ser possível e não termos de aceitar, por exemplo, que os cidadãos ingleses conduzissem pela esquerda em Portugal, teríamos de ir para as soluções também nada edificantes do apartheid, dos guetos ou das reservas de índios das Américas. Rejeito totalmente.
Se estudarmos a história do povoamento desta terra onde hoje vivemos, chegaremos à conclusão de que os descendentes daquele povo que deixou a região onde hoje é o triste Darfur há 150.000 anos foram chegando aos poucos a este território, uns via Mediterrâneo, outros via Pirineus. Já vejo alguns a arrepiarem os cabelos (rapados) porque o avô era negro! Naturalmente que um povo que chegava não ia integrar-se imediatamente na cultura, usos e costumes dos que já cá estavam há séculos. Para coexistirem, certamente estabeleceram procedimentos comuns, independentemente de continuarem com as sua práticas culturais, obviamente na parte que não ofendesse esses procedimentos, e foram dando contributos para a criação gradual de uma nova cultura. Eles mostram-nos o caminho!
Defendo que a solução está no interculturalismo, que consiste em se estabelecer uma plataforma de coexistência comum, com a contribuição de todos, mantendo cada um a sua liberdade religiosa e cultural, com excepção das práticas que ofendam essa plataforma de coexistência plasmada nas leis.
É a tradição deste povo de Portugal, descendente das mais variadas culturas e que contribuiu em muito para o enriquecimento de muitas outras. Disso podemos e devemos orgulhar-nos!
Vou tentar analisar a viabilidade e utilidade prática de cada um.
Os integracionistas radicais defendem que todos os indivíduos de origem cultural diferente da da maioria estabelecida, devem integrar-se totalmente na prática, usos e costumes dessa maioria, com abandono, e até repúdio, da sua herança cultural. Em extremo, todos deveriam passar a gostar de bacalhau com batatas e couratos e ser cristãos. Foi o exemplo pouco edificante da Santa Inquisição e é a prática, não mais edificante, dos regimes ditatoriais, portanto a rejeitar.
Por outro lado, os defensores radicais do multiculturalismo defenderão que cada um actue de acordo com a sua origem cultural. Para isto ser possível e não termos de aceitar, por exemplo, que os cidadãos ingleses conduzissem pela esquerda em Portugal, teríamos de ir para as soluções também nada edificantes do apartheid, dos guetos ou das reservas de índios das Américas. Rejeito totalmente.
Se estudarmos a história do povoamento desta terra onde hoje vivemos, chegaremos à conclusão de que os descendentes daquele povo que deixou a região onde hoje é o triste Darfur há 150.000 anos foram chegando aos poucos a este território, uns via Mediterrâneo, outros via Pirineus. Já vejo alguns a arrepiarem os cabelos (rapados) porque o avô era negro! Naturalmente que um povo que chegava não ia integrar-se imediatamente na cultura, usos e costumes dos que já cá estavam há séculos. Para coexistirem, certamente estabeleceram procedimentos comuns, independentemente de continuarem com as sua práticas culturais, obviamente na parte que não ofendesse esses procedimentos, e foram dando contributos para a criação gradual de uma nova cultura. Eles mostram-nos o caminho!
Defendo que a solução está no interculturalismo, que consiste em se estabelecer uma plataforma de coexistência comum, com a contribuição de todos, mantendo cada um a sua liberdade religiosa e cultural, com excepção das práticas que ofendam essa plataforma de coexistência plasmada nas leis.
É a tradição deste povo de Portugal, descendente das mais variadas culturas e que contribuiu em muito para o enriquecimento de muitas outras. Disso podemos e devemos orgulhar-nos!
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
Mais explicações esfarrapadas...
Divirto-me a ouvir e ver alguns dos diversos debates políticos apresentados na rádio e TV. Podem crer que são um valioso contributo para o anedotário nacional, rivalizando alguns com os mais cotados humoristas.
Ora vejam só estes primores:
Um senhor, com alto cargo no ministério da Educação, explicava o facto de os miúdos hoje saírem do 4.º ano de escolaridade a saber muito menos que nós à saída da 4.ª classe, com o prolongamento da escolaridade obrigatória. Esclarecia o senhor que, como antigamente a maioria ficava somente com a 4.ª classe, tinham de aprender o mais possível até essa altura. Hoje, com a escolaridade até ao 9.º ano, têm mais 5 anos para aprender.
Não é notável?
Segundo a teoria exposta, com o prolongamento da escolaridade obrigatória não se pretende ensinar mais aos jovens. Pretende-se ensinar o mesmo em mais tempo!!!!
Quem teve esta ideia, deve ter ficado cheio de dores...nos pés.
Outra conclusão extraordinária prende-se com o facto de os aposentados da Função Pública descontarem para a A.D.S.E. sobre os subsídios de Natal e 14.º mês, ao contrário dos funcionários do activo que não descontam. Em Abril passado, em frente às reportagens televisivas, o sr. Ministro das Finanças, posto perante esta desigualdade, declarou que o assunto se iria resolver.
Apareceu agora a resolução. Não só se mantém o desconto para os aposentados, como se estenderá aos funcionários que entrem de novo.
Um senhor com sorriso alvar, que julgo ser Secretário de Estado, argumentava que se tratava de uma recomendação do senhor Provedor de Justiça e que, descontando os funcionários do activo 1,5% para a A.D.S.E. e os aposentados 1%, 1% x 14 é menos que 1,5% x 12, pelo que os aposentados ainda estavam em vantagem.
Brilhante matemático!
A lei que determinou o desconto dos aposentados para a A.D.S.E. estabelece que o desconto se inicie por 1% em 2007, aumentando progressivamente 0,1% ao ano até atingir os 1,5% dos funcionários do activo. Assim, o desconto actual é de 1,1%. A partir de 2010, já os reformados passam a descontar mais que os colegas do activo, excepto os que entrem de novo.
O senhor do sorriso alvar, ou ignora a lei, ou está a enganar deliberadamente as pessoas.
Se ignora a lei, merece a designação adequada. Se está a enganar deliberadamente as pessoas, isso também tem nome...
Quanto à recomendação do sr. Provedor de Justiça, acredito que fosse no sentido de acabar com a desigualdade de tratamento. O Governo nivela por baixo...
No entanto, surge deste triste facto uma nova teoria:
Se tiver um furo num pneu do carro, não repare esse pneu. Fure os outros 3!
Igualdade Teixeira-style!
Ora vejam só estes primores:
Um senhor, com alto cargo no ministério da Educação, explicava o facto de os miúdos hoje saírem do 4.º ano de escolaridade a saber muito menos que nós à saída da 4.ª classe, com o prolongamento da escolaridade obrigatória. Esclarecia o senhor que, como antigamente a maioria ficava somente com a 4.ª classe, tinham de aprender o mais possível até essa altura. Hoje, com a escolaridade até ao 9.º ano, têm mais 5 anos para aprender.
Não é notável?
Segundo a teoria exposta, com o prolongamento da escolaridade obrigatória não se pretende ensinar mais aos jovens. Pretende-se ensinar o mesmo em mais tempo!!!!
Quem teve esta ideia, deve ter ficado cheio de dores...nos pés.
Outra conclusão extraordinária prende-se com o facto de os aposentados da Função Pública descontarem para a A.D.S.E. sobre os subsídios de Natal e 14.º mês, ao contrário dos funcionários do activo que não descontam. Em Abril passado, em frente às reportagens televisivas, o sr. Ministro das Finanças, posto perante esta desigualdade, declarou que o assunto se iria resolver.
Apareceu agora a resolução. Não só se mantém o desconto para os aposentados, como se estenderá aos funcionários que entrem de novo.
Um senhor com sorriso alvar, que julgo ser Secretário de Estado, argumentava que se tratava de uma recomendação do senhor Provedor de Justiça e que, descontando os funcionários do activo 1,5% para a A.D.S.E. e os aposentados 1%, 1% x 14 é menos que 1,5% x 12, pelo que os aposentados ainda estavam em vantagem.
Brilhante matemático!
A lei que determinou o desconto dos aposentados para a A.D.S.E. estabelece que o desconto se inicie por 1% em 2007, aumentando progressivamente 0,1% ao ano até atingir os 1,5% dos funcionários do activo. Assim, o desconto actual é de 1,1%. A partir de 2010, já os reformados passam a descontar mais que os colegas do activo, excepto os que entrem de novo.
O senhor do sorriso alvar, ou ignora a lei, ou está a enganar deliberadamente as pessoas.
Se ignora a lei, merece a designação adequada. Se está a enganar deliberadamente as pessoas, isso também tem nome...
Quanto à recomendação do sr. Provedor de Justiça, acredito que fosse no sentido de acabar com a desigualdade de tratamento. O Governo nivela por baixo...
No entanto, surge deste triste facto uma nova teoria:
Se tiver um furo num pneu do carro, não repare esse pneu. Fure os outros 3!
Igualdade Teixeira-style!
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Vida de enfermeiro
Os meus amigos Celso e Alcina enviaram-me, em forward, um texto que relata o dia de um enfermeiro em visita domiciliária.
Considero o texto um testemunho exemplar da dedicação, abnegação, profissionalismo e respeito pelo "outro" que tantas vezes testemunhei ao longo de 37 anos de trabalho ombro-a-ombro com aqueles profissionais tão maltratados e vilipendiados que nem o seu grau académico é devidamente reconhecido pelo mesmo Estado que lho conferiu.
É que, embora o texto se refira a visitas domiciliárias, as situações nos hospitais, e sentimentos correspondentes, não são diferentes. Lembra-me de ver algumas enfermeiras a chorar perante a impotência de manterem a vida ao seu doente.
Os locais descritos são, infelizmente, a imagem real de grande parte do País, que se esconde atrás dos hiper-centros comerciais, dos hotéis de luxo e do que se considera publicável pela comunicação social.
Como defendo que as pessoas devem ser melhor informadas do que se passa atrás das batas brancas e outros aspectos visíveis das instituições de saúde, não resisto a transcrever o texto recebido, com a minha homenagem a tão abnegados profissionais. Cá vai:
A casa dos outros
A D. Maria tem 47 anos... e um cancro do ovário. O marido, já reformado, quis satisfazer-lhe o desejo de não morrer no hospital.
Têm uma filha, a acabar o curso na universidade: boa aluna, em altura de exames... precisa de estudar e a sua mãe está a terminar os seus dias de vida no quarto ao lado.
A D. Maria está em cuidados paliativos... e sabe disso! Já não quer comer, bebe apenas alguns goles de água. Tem um soro para que lhe possamos dar a medicação. Tem uma perfusão permanente de morfina, cuja eficácia não é total. A barriga... como descrever? Tem uma colostomia,que mal funciona... está inchada, como um balão que vai rebentar... e de facto, começa a rebentar: abrem-se fístulas espontaneamente e as fezes saem por todo o lado. O cheiro? Não consigo descrever! O corpo? Pele e osso, para ser mais exacta! Há metástases no fígado, no pulmão... a respiração é ofegante... já lá vão 5 semanas...
Diariamente desloco-me a casa da D. Maria, duas ou três vezes: para dar medicação, para cuidar daquela barriga... para falar com ela, para dar o apoio possível ao marido que tenta fazer o que sabe e o que pode. O sofrimento? É grande... de todos!
Mas eu sou enfermeira: não é suposto que me seja difícil ver sofrimento dos outros!
Tudo se torna mais difícil quando estou a sós com a D. Maria, que me agarra na mão e me pede insistentemente... que termine com a vida dela! Os apelos são cada vez mais frequentes, mais desesperados: 'Por favor! Se tem compaixão de mim, injecte-me qualquer coisa para terminar de vez com esta agonia! Pela sua felicidade, por favor, acabe com a minha vida...'
E eu tenho compaixão... mas nada posso fazer! A dor não se consegue controlar, é impossível cuidar dela sem lhe provocar ainda mais dores? O que faz uma enfermeira? Vai-se embora, para casa, a sentir-se inútil... A sentir-se incapaz... Ao ouvir repetidamente aquele apelo... e a desejar, embora lhe custe muito, que a eutanásia fosse possível! Mas, se fosse possível... e a praticasse, como iria para casa?
Mas para quê falar disto?... Os enfermeiros não têm sentimentos!
Saio dali, continuo o meu trabalho domiciliário: agora entro numa barraca, onde chove dentro, onde há ratos, pulgas, lixo... onde o cheiro nos faz perder o apetite...
O Sr. José tem 87 anos e vive sozinho. Tem uma úlcera varicosa. Tenho que fazer o penso. Não há água... nem sequer as mãos posso lavar. Passo-as por álcool à saída e lavo-as na casa do próximo utente.Chove desalmadamente. Volto para o carro, pelo meio da lama. Carrego as malas do material para os cuidados.
Mas para quê falar disto?... A minha profissão não é penosa!...
Próxima paragem: D. Joaquina, 92 anos, vive numas águas furtadas, 5ºandar, sem elevador. Subo as escadas de madeira, apodrecidas,obscuras, com medo que alguma tábua se parta. Carrego com as malas do material...
A D. Joaquina vive com uma irmã, naquele espaço exíguo. Teve uma trombose.Tem úlceras de pressão. O tecto é baixo, inclinado, a cama está encostada à parede. Para lhe prestar cuidados tenho que me pôr de joelhos no chão e ficar inclinada.
Quando me tento endireitar as minhas costas doem... tenho as pernas dormentes... pego nas malas, desço as escadas... continua a chover...procuro o carro que tive que estacionar a 500 metros!
Mas, para quê falar disso? Os enfermeiros não se queixam...
Próximo desafio: a Helena! Toxicodependente... tem SIDA, continua a consumir... com sorte, ainda lá encontro o traficante em casa... mas as enfermeiras não têm medo!
Continuo: o Sr. Manuel é diabético, divorciado, tem 50 anos, foi amputado de uma perna, vive sozinho num 3º andar. Há 2 anos que não sai de casa: como fazer? Das poucas pessoas, com quem convive, são as enfermeiras! Precisa de conversar... como lhe dizer que ainda tenho mais 4, ou 8 pessoas e que não tenho tempo para estar ali a ouvi-lo?
Mas para quê falar disso? Os enfermeiros só dão injecções e fazem pensos... tudo o resto é supérfluo!
Para quê falar da solidão do outro, da minha impotência, do pedido da eutanásia, da chuva, do frio, do sol, do calor, do mau cheiro, das minhas dores nas pernas, do material do penso a conspurcar o meu carro (a seguir vou buscar a minha filha à escola!), das dores nas costas,do medo, da insegurança, do ventre desfeito, da tristeza, da compaixão...
Não, a penosidade e o risco devem ser uma ilusão minha...
Não, as enfermeiras não choram!
Mas sabem?... as lágrimas que mais doem são aquelas que não correm!'
Considero o texto um testemunho exemplar da dedicação, abnegação, profissionalismo e respeito pelo "outro" que tantas vezes testemunhei ao longo de 37 anos de trabalho ombro-a-ombro com aqueles profissionais tão maltratados e vilipendiados que nem o seu grau académico é devidamente reconhecido pelo mesmo Estado que lho conferiu.
É que, embora o texto se refira a visitas domiciliárias, as situações nos hospitais, e sentimentos correspondentes, não são diferentes. Lembra-me de ver algumas enfermeiras a chorar perante a impotência de manterem a vida ao seu doente.
Os locais descritos são, infelizmente, a imagem real de grande parte do País, que se esconde atrás dos hiper-centros comerciais, dos hotéis de luxo e do que se considera publicável pela comunicação social.
Como defendo que as pessoas devem ser melhor informadas do que se passa atrás das batas brancas e outros aspectos visíveis das instituições de saúde, não resisto a transcrever o texto recebido, com a minha homenagem a tão abnegados profissionais. Cá vai:
A casa dos outros
A D. Maria tem 47 anos... e um cancro do ovário. O marido, já reformado, quis satisfazer-lhe o desejo de não morrer no hospital.
Têm uma filha, a acabar o curso na universidade: boa aluna, em altura de exames... precisa de estudar e a sua mãe está a terminar os seus dias de vida no quarto ao lado.
A D. Maria está em cuidados paliativos... e sabe disso! Já não quer comer, bebe apenas alguns goles de água. Tem um soro para que lhe possamos dar a medicação. Tem uma perfusão permanente de morfina, cuja eficácia não é total. A barriga... como descrever? Tem uma colostomia,que mal funciona... está inchada, como um balão que vai rebentar... e de facto, começa a rebentar: abrem-se fístulas espontaneamente e as fezes saem por todo o lado. O cheiro? Não consigo descrever! O corpo? Pele e osso, para ser mais exacta! Há metástases no fígado, no pulmão... a respiração é ofegante... já lá vão 5 semanas...
Diariamente desloco-me a casa da D. Maria, duas ou três vezes: para dar medicação, para cuidar daquela barriga... para falar com ela, para dar o apoio possível ao marido que tenta fazer o que sabe e o que pode. O sofrimento? É grande... de todos!
Mas eu sou enfermeira: não é suposto que me seja difícil ver sofrimento dos outros!
Tudo se torna mais difícil quando estou a sós com a D. Maria, que me agarra na mão e me pede insistentemente... que termine com a vida dela! Os apelos são cada vez mais frequentes, mais desesperados: 'Por favor! Se tem compaixão de mim, injecte-me qualquer coisa para terminar de vez com esta agonia! Pela sua felicidade, por favor, acabe com a minha vida...'
E eu tenho compaixão... mas nada posso fazer! A dor não se consegue controlar, é impossível cuidar dela sem lhe provocar ainda mais dores? O que faz uma enfermeira? Vai-se embora, para casa, a sentir-se inútil... A sentir-se incapaz... Ao ouvir repetidamente aquele apelo... e a desejar, embora lhe custe muito, que a eutanásia fosse possível! Mas, se fosse possível... e a praticasse, como iria para casa?
Mas para quê falar disto?... Os enfermeiros não têm sentimentos!
Saio dali, continuo o meu trabalho domiciliário: agora entro numa barraca, onde chove dentro, onde há ratos, pulgas, lixo... onde o cheiro nos faz perder o apetite...
O Sr. José tem 87 anos e vive sozinho. Tem uma úlcera varicosa. Tenho que fazer o penso. Não há água... nem sequer as mãos posso lavar. Passo-as por álcool à saída e lavo-as na casa do próximo utente.Chove desalmadamente. Volto para o carro, pelo meio da lama. Carrego as malas do material para os cuidados.
Mas para quê falar disto?... A minha profissão não é penosa!...
Próxima paragem: D. Joaquina, 92 anos, vive numas águas furtadas, 5ºandar, sem elevador. Subo as escadas de madeira, apodrecidas,obscuras, com medo que alguma tábua se parta. Carrego com as malas do material...
A D. Joaquina vive com uma irmã, naquele espaço exíguo. Teve uma trombose.Tem úlceras de pressão. O tecto é baixo, inclinado, a cama está encostada à parede. Para lhe prestar cuidados tenho que me pôr de joelhos no chão e ficar inclinada.
Quando me tento endireitar as minhas costas doem... tenho as pernas dormentes... pego nas malas, desço as escadas... continua a chover...procuro o carro que tive que estacionar a 500 metros!
Mas, para quê falar disso? Os enfermeiros não se queixam...
Próximo desafio: a Helena! Toxicodependente... tem SIDA, continua a consumir... com sorte, ainda lá encontro o traficante em casa... mas as enfermeiras não têm medo!
Continuo: o Sr. Manuel é diabético, divorciado, tem 50 anos, foi amputado de uma perna, vive sozinho num 3º andar. Há 2 anos que não sai de casa: como fazer? Das poucas pessoas, com quem convive, são as enfermeiras! Precisa de conversar... como lhe dizer que ainda tenho mais 4, ou 8 pessoas e que não tenho tempo para estar ali a ouvi-lo?
Mas para quê falar disso? Os enfermeiros só dão injecções e fazem pensos... tudo o resto é supérfluo!
Para quê falar da solidão do outro, da minha impotência, do pedido da eutanásia, da chuva, do frio, do sol, do calor, do mau cheiro, das minhas dores nas pernas, do material do penso a conspurcar o meu carro (a seguir vou buscar a minha filha à escola!), das dores nas costas,do medo, da insegurança, do ventre desfeito, da tristeza, da compaixão...
Não, a penosidade e o risco devem ser uma ilusão minha...
Não, as enfermeiras não choram!
Mas sabem?... as lágrimas que mais doem são aquelas que não correm!'
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Da pena de lousa ao Magalhães
Hoje, bombardeado pelas referências noticiosas ao Magalhães, o computador para os miúdos da primária, dei comigo a recordar os tempos da minha escola primária e a evolução dos meios de escrita e de cálculo desde aí.
Sim, porque continuo a afirmar que o computador é uma ferramenta, como a esferográfica, que pode ser benéfico ou maléfico conforme o uso que se fizer dele. Não faz milagres nem substitui o professor.
Mas entrando nas recordações, quando entrei para a primária, em 1953, as escolas também não tinham aquecimento nem espaços desportivos, nem transportes, nem cantina, só que ninguém as fechava por causa disso. Escrevia-se nos cadernos e nas provas (havia várias sem que ficássemos psicologicamente afectados) com canetas de molhar no tinteiro, que fazia parte da carteira de madeira. As coisas temporárias de acompanhamento das aulas (principalmente contas) faziam-se num pequeno quadro de ardósia- a lousa -, onde se escrevia com um pedaço do mesmo material - a pena de lousa -, sendo que duas custavam 1 tostão.
Reprovava-se (ficava-se retido) em todas as classes, só se avançando se se soubesse mesmo a matéria.
Passado para o liceu, em 1956, já se escrevia com caneta de tinta permanente, o que nos conferia um ar "importante".
Quando, talvez por 1958, apareceu a esferográfica, foi considerada objecto pernicioso, sendo proibida nos pontos (testes), exames e documentos oficiais. Todos estes escritos tinham de ser feitos a tinta líquida azul. O regime abominava "modernices". Não obrigarem à pena de pato, já era um grande salto tecnológico e demonstração de modernidade!
Mais tarde, 1963, no ensino superior, já se podia utilizar a régua de cálculo, ferramenta utilíssima e bastante rápida para a realização de cálculos complexos. Nessa época, um computador ocupava um andar e não tinha maior capacidade que a mais barata das nossas calculadoras de bolso actuais. Não se vendiam. As empresas de informática - IBM, NCR - alugavam-nos aos bancos e outras empresas do género.
Hoje, nas discussões e comentários sobre o assunto, ainda lá estavam os que consideram o computador pernicioso - já aceitaram a esferográfica! - e causador de os meninos não saberem nada. Outros, no extremo oposto e com a mesma dose de ignorância, acham que ficam resolvidos todos os problemas da educação. Como se a ferramenta ensinasse alguém a trabalhar!
Se queremos formar os jovens para o futuro, claro que temos de os habituar a utilizar os meios do mundo moderno, o que não impede, pelo contrário, que saibam fazer os cálculos e a escrita de modo manual, até para programarem o computador.
Benvindo, Magalhães!
Sim, porque continuo a afirmar que o computador é uma ferramenta, como a esferográfica, que pode ser benéfico ou maléfico conforme o uso que se fizer dele. Não faz milagres nem substitui o professor.
Mas entrando nas recordações, quando entrei para a primária, em 1953, as escolas também não tinham aquecimento nem espaços desportivos, nem transportes, nem cantina, só que ninguém as fechava por causa disso. Escrevia-se nos cadernos e nas provas (havia várias sem que ficássemos psicologicamente afectados) com canetas de molhar no tinteiro, que fazia parte da carteira de madeira. As coisas temporárias de acompanhamento das aulas (principalmente contas) faziam-se num pequeno quadro de ardósia- a lousa -, onde se escrevia com um pedaço do mesmo material - a pena de lousa -, sendo que duas custavam 1 tostão.
Reprovava-se (ficava-se retido) em todas as classes, só se avançando se se soubesse mesmo a matéria.
Passado para o liceu, em 1956, já se escrevia com caneta de tinta permanente, o que nos conferia um ar "importante".
Quando, talvez por 1958, apareceu a esferográfica, foi considerada objecto pernicioso, sendo proibida nos pontos (testes), exames e documentos oficiais. Todos estes escritos tinham de ser feitos a tinta líquida azul. O regime abominava "modernices". Não obrigarem à pena de pato, já era um grande salto tecnológico e demonstração de modernidade!
Mais tarde, 1963, no ensino superior, já se podia utilizar a régua de cálculo, ferramenta utilíssima e bastante rápida para a realização de cálculos complexos. Nessa época, um computador ocupava um andar e não tinha maior capacidade que a mais barata das nossas calculadoras de bolso actuais. Não se vendiam. As empresas de informática - IBM, NCR - alugavam-nos aos bancos e outras empresas do género.
Hoje, nas discussões e comentários sobre o assunto, ainda lá estavam os que consideram o computador pernicioso - já aceitaram a esferográfica! - e causador de os meninos não saberem nada. Outros, no extremo oposto e com a mesma dose de ignorância, acham que ficam resolvidos todos os problemas da educação. Como se a ferramenta ensinasse alguém a trabalhar!
Se queremos formar os jovens para o futuro, claro que temos de os habituar a utilizar os meios do mundo moderno, o que não impede, pelo contrário, que saibam fazer os cálculos e a escrita de modo manual, até para programarem o computador.
Benvindo, Magalhães!
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Há cada explicação....
Há dias, a propósito da polémica das grandes melhorias na performance do ensino, que alguns ligaram ao "aconselhamento" aos professores para que não houvesse retenções (agora não se chama chumbo por razões ecológicas relacionadas com a nocividade dos metais pesados...), um senhor ministro, que se intitulou professor catedrático, veio negar quaisquer interferências do governo em tais matérias, mas defender o fim das retenções.
Dizia o senhor ministro haver um estudo que demonstrava que os alunos que estavam num ano escolar correspondente à sua idade eram melhores alunos que aqueles que estavam num ano escolar atrasado em relação à idade, concluindo-se que os segundos não eram bons alunos por terem sido retidos, colocando-os em anos atrasados.
BRILHANTE!!!!! Os alunos que estão em anos escolares correspondentes à sua idade não estão lá por serem bons alunos. São bons alunos porque estão lá!!!!!
Concluía o senhor ministro que, se evitássemos as retenções, colocando todos os alunos nos anos correspondentes à sua idade, acabaríamos com o insucesso escolar. Notável!!!
Seguindo o raciocínio do senhor ministro, se dermos a um licenciado em direito um certificado de doutoramento em física nuclear, corremos o risco de ter um prémio Nobel da física.
Para ajudar a dar-nos um nó na inteligência, vêm agora os senhores das petrolíferas explicar que os combustíveis aumentaram imediata e brutalmente devido ao aumento dos preços do petróleo, sendo irrelevante para o caso a queda livre do dólar em relação ao euro. Já quando os preços do petróleo baixam drasticamente, os combustíveis não podem baixar imediatamente devido à pequena subida do dólar em relação ao euro.
Então em que ficamos? A fórmula só funciona num sentido? A relação euro-dólar só é relevante para baixar os preços?
Para rematar as explicações esfarrapadas, parece que o governo não quer considerar na carreira de técnicos superiores (licenciados) os enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica, cujos cursos são de licenciatura.
Porquê? Será por causa do título genérico de "doutor", usado abusivamente pelos licenciados em geral? Depois haveria confusões com os médicos, farmacêuticos e outros? Então e o "respeitinho"?
Será que há licenciaturas de 1.ª e de 2.ª?
Desculpem estes desabafos, mas tenho a sensação de que, ou me andam a tentar vigarizar ou estou atacado com o síndroma da PDI.
Dizia o senhor ministro haver um estudo que demonstrava que os alunos que estavam num ano escolar correspondente à sua idade eram melhores alunos que aqueles que estavam num ano escolar atrasado em relação à idade, concluindo-se que os segundos não eram bons alunos por terem sido retidos, colocando-os em anos atrasados.
BRILHANTE!!!!! Os alunos que estão em anos escolares correspondentes à sua idade não estão lá por serem bons alunos. São bons alunos porque estão lá!!!!!
Concluía o senhor ministro que, se evitássemos as retenções, colocando todos os alunos nos anos correspondentes à sua idade, acabaríamos com o insucesso escolar. Notável!!!
Seguindo o raciocínio do senhor ministro, se dermos a um licenciado em direito um certificado de doutoramento em física nuclear, corremos o risco de ter um prémio Nobel da física.
Para ajudar a dar-nos um nó na inteligência, vêm agora os senhores das petrolíferas explicar que os combustíveis aumentaram imediata e brutalmente devido ao aumento dos preços do petróleo, sendo irrelevante para o caso a queda livre do dólar em relação ao euro. Já quando os preços do petróleo baixam drasticamente, os combustíveis não podem baixar imediatamente devido à pequena subida do dólar em relação ao euro.
Então em que ficamos? A fórmula só funciona num sentido? A relação euro-dólar só é relevante para baixar os preços?
Para rematar as explicações esfarrapadas, parece que o governo não quer considerar na carreira de técnicos superiores (licenciados) os enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica, cujos cursos são de licenciatura.
Porquê? Será por causa do título genérico de "doutor", usado abusivamente pelos licenciados em geral? Depois haveria confusões com os médicos, farmacêuticos e outros? Então e o "respeitinho"?
Será que há licenciaturas de 1.ª e de 2.ª?
Desculpem estes desabafos, mas tenho a sensação de que, ou me andam a tentar vigarizar ou estou atacado com o síndroma da PDI.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Grandes lições...
Ontem, a propósito de uma experiência inédita no campo da física das partículas, que se diz ir dar uma ideia aproximada do que se passou imediatamente a seguir ao big-bang, tivemos oportunidade de assistir nos diversos canais de televisão a memoráveis lições de ciência e humildade.
Desde logo eminentes físicos explicaram a complexa experiência de modo a toda a gente perceber. Todos afirmaram não se tratar do fim das pesquisas científicas, mas do início de uma nova fase de investigação. Isto é, quanto mais se sabe, mais consciência se tem do que há ainda para saber. Posta perante o problema do início de tudo, uma cientista disse mesmo que se supõe que o big-bang foi o resultado do choque de partículas. Mas onde estavam as partículas? De onde vieram? Início?
Também proeminentes representantes da Igreja Católica se pronunciaram a favor dos progressos científicos, classificando as teorias criacionistas do "Génesis" de mitologia que nada tinha de científico.
Enfim, um dia memorável de humildade, onde se viu que as pessoas que realmente têm valor e saber o exprimem com simplicidade.
Grandes lições para todos nós, especialmente para aqueles que julgam que complicar as explicações os tornam credores de grande admiração.
Desde logo eminentes físicos explicaram a complexa experiência de modo a toda a gente perceber. Todos afirmaram não se tratar do fim das pesquisas científicas, mas do início de uma nova fase de investigação. Isto é, quanto mais se sabe, mais consciência se tem do que há ainda para saber. Posta perante o problema do início de tudo, uma cientista disse mesmo que se supõe que o big-bang foi o resultado do choque de partículas. Mas onde estavam as partículas? De onde vieram? Início?
Também proeminentes representantes da Igreja Católica se pronunciaram a favor dos progressos científicos, classificando as teorias criacionistas do "Génesis" de mitologia que nada tinha de científico.
Enfim, um dia memorável de humildade, onde se viu que as pessoas que realmente têm valor e saber o exprimem com simplicidade.
Grandes lições para todos nós, especialmente para aqueles que julgam que complicar as explicações os tornam credores de grande admiração.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Seguranças, inseguranças e outras andanças
Desde há cerca de um mês que vimos sendo bombardeados com notícias de criminalidade violenta a níveis a que não estamos habituados.
Os responsáveis políticos tentam demonstrar-nos, com a eterna estatística, que nada de anormal se passa, tratando-se de factos normais empolados pela comunicação social. Claro que os assassinados, gravemente feridos e roubados são meros "danos colaterais"... Onde é que eu já ouvi isto?!
Os polícias queixam-se de que arriscam a vida para prender um criminoso, que será imediatamente libertado pelo tribunal, saindo até antes do polícia, e de que só podem usar a força depois de mortos.
Os juízes dizem que a culpa é dos legisladores, pois apenas lhes compete cumprir escrupulosamente a lei.
Os governantes, e legisladores, acusam os juízes de não interpretarem correctamente os textos legislativos (onde chega a iliteracia...!).
Alguém, que mantém o mau hábito de pensar, perguntou-me: "Já reparaste que no ano anterior a eleições há grandes surtos de criminalidade, incêndios florestais e outros factos que tentam pôr a nu as fragilidades dos governos e do sistema"?
Claro que não posso concordar com a desconfiança implícita, que toca as raias da aleivosia (ai a influência das feiras medievais...) e das teorias da conspiração. Pero, que las hay, hay!
Os responsáveis políticos tentam demonstrar-nos, com a eterna estatística, que nada de anormal se passa, tratando-se de factos normais empolados pela comunicação social. Claro que os assassinados, gravemente feridos e roubados são meros "danos colaterais"... Onde é que eu já ouvi isto?!
Os polícias queixam-se de que arriscam a vida para prender um criminoso, que será imediatamente libertado pelo tribunal, saindo até antes do polícia, e de que só podem usar a força depois de mortos.
Os juízes dizem que a culpa é dos legisladores, pois apenas lhes compete cumprir escrupulosamente a lei.
Os governantes, e legisladores, acusam os juízes de não interpretarem correctamente os textos legislativos (onde chega a iliteracia...!).
Alguém, que mantém o mau hábito de pensar, perguntou-me: "Já reparaste que no ano anterior a eleições há grandes surtos de criminalidade, incêndios florestais e outros factos que tentam pôr a nu as fragilidades dos governos e do sistema"?
Claro que não posso concordar com a desconfiança implícita, que toca as raias da aleivosia (ai a influência das feiras medievais...) e das teorias da conspiração. Pero, que las hay, hay!
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Um país de campeões
Desde há vários anos que somos diariamente injectados com o modelo social a que o prof. Cavaco, enquanto primeiro-ministro, chamou de "sociedade de sucesso" e que não é mais que a sociedade dos "winners" e dos "loosers" e relativos "taxpayers".
Os portugueses, que se sentem "taxpayers", exigem a todos aqueles que tenham algum subsidiosito do Estado, portanto dos seus impostos, que sejam indiscutivelmente "winners". Afinal não passam de seus "empregados" com a obrigação de serem os melhores nas funções que lhes são confiadas, mesmo que o subsídio mais mereça a designação de esmola.
Da selecção de futebol não se exige menos que serem campeões da Europa e do Mundo. Os "patrões" já fizeram a sua parte, contribuindo para o subsidiosito e pondo a bandeirinha na janela.
Agora dos atletas olímpicos exige-se que traga uma medalha de ouro cada um. Caso contrário, são uma cambada de calaceiros que andam a passear à nossa custa. Não interessa se anteriormente, fruto de muito esforço pessoal, têm resultados muito acima do que seria de esperar das condições de que dispõem, tendo até já sido campeões do mundo.
Claro que para quem está sentado a ver as provas na televisão enquanto trinca uns tremoços e escoa umas bejecas tudo é muito fácil e só não ganham porque não querem.
É que os portugueses gostam muito de falar de desporto, assunto em que se julgam muito entendidos. Quanto a praticá-lo, ficam-se pelo levantamento do copo e lançamento da perisca.
Quando essas modalidades passarem a disciplinas olímpicas, haverá certamente chuva de medalhas de todos os metais!
Os portugueses, que se sentem "taxpayers", exigem a todos aqueles que tenham algum subsidiosito do Estado, portanto dos seus impostos, que sejam indiscutivelmente "winners". Afinal não passam de seus "empregados" com a obrigação de serem os melhores nas funções que lhes são confiadas, mesmo que o subsídio mais mereça a designação de esmola.
Da selecção de futebol não se exige menos que serem campeões da Europa e do Mundo. Os "patrões" já fizeram a sua parte, contribuindo para o subsidiosito e pondo a bandeirinha na janela.
Agora dos atletas olímpicos exige-se que traga uma medalha de ouro cada um. Caso contrário, são uma cambada de calaceiros que andam a passear à nossa custa. Não interessa se anteriormente, fruto de muito esforço pessoal, têm resultados muito acima do que seria de esperar das condições de que dispõem, tendo até já sido campeões do mundo.
Claro que para quem está sentado a ver as provas na televisão enquanto trinca uns tremoços e escoa umas bejecas tudo é muito fácil e só não ganham porque não querem.
É que os portugueses gostam muito de falar de desporto, assunto em que se julgam muito entendidos. Quanto a praticá-lo, ficam-se pelo levantamento do copo e lançamento da perisca.
Quando essas modalidades passarem a disciplinas olímpicas, haverá certamente chuva de medalhas de todos os metais!
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Um Grupo impar
Em 1991, um grupo de portugueses a trabalhar em Macau, alguns com experiências em grupos de música tradicional, decidiu formar um grupo para dançar e cantar umas coisas lá da Terra, sempre bom pretexto para um são convívio. Assim nasceu o GDCCM, Grupo de Danças e Cantares do Clube de Macau.
Como a rapaziada gostava mesmo daquilo e o Mestre era dos melhores, atingiu-se um nível que levou ao apoio do governo do general Rocha Vieira como a imagem de marca da cultura portuguesa naquelas paragens.
E lá foram eles por tudo quanto era sítio, de Pequim a Wuxi (inauguração da réplica da Torre de Belém à escala 3/4), de Kagoshima e Osaka a Seul e Taejon (Expo 93 e lançamento, com o dr. Mário Soares, da Expo 98), de Bangkok e Ratchaburi a Singapura e muitos outros lugares das partes do Oriente, e até em Portugal.
Com a devolução de Macau à China, em 1999, grande parte dos elementos voltou aos seus lugares dos quadros em Portugal e o Grupo como que entrou em hibernação, tendo deixado em Macau um "filho", que se denomina Grupo de Danças e Cantares de Macau.
De vez em quando a hibernação é interrompida com o apelo de um ou mais elementos para um encontro. Faz-se um "refresh" do repertório, dão-se uns abraços e lá se entra em outro período hibernatório até à próxima.
Foi o que aconteceu no passado sábado, a convocatória para casa do Mestre Abel. Depois dos abraços de amigos daqueles que já vão rareando, que não se viam há vários anos, e do magnífico almoço, começou o "refreshment". Não me refiro só ao "branco", digno do próprio Baco.
Ouviu-se o inconfundível acordeão do Abel, que já acompanhou a "Menina" do Pedro Barroso e a "Ópera do Bandoleiro". Aquilo é magia! Parece que recuámos 10 anos no tempo! Esquecem-se os mais de 60 anos, as danças e as cantigas voltam à memória e vá de dançar e cantar de modo que nos espantou. Embora sem ensaios, certamente não nos envergonharíamos numa volta aos palcos... É que, com o Abel, o impossível já se fez no ano passado....
E com este sentimento de rejuvenescimento, já com a noite bastante avançada, lá nos despedimos para mais uma hibernação.
Obrigado, Abel!
Como a rapaziada gostava mesmo daquilo e o Mestre era dos melhores, atingiu-se um nível que levou ao apoio do governo do general Rocha Vieira como a imagem de marca da cultura portuguesa naquelas paragens.
E lá foram eles por tudo quanto era sítio, de Pequim a Wuxi (inauguração da réplica da Torre de Belém à escala 3/4), de Kagoshima e Osaka a Seul e Taejon (Expo 93 e lançamento, com o dr. Mário Soares, da Expo 98), de Bangkok e Ratchaburi a Singapura e muitos outros lugares das partes do Oriente, e até em Portugal.
Com a devolução de Macau à China, em 1999, grande parte dos elementos voltou aos seus lugares dos quadros em Portugal e o Grupo como que entrou em hibernação, tendo deixado em Macau um "filho", que se denomina Grupo de Danças e Cantares de Macau.
De vez em quando a hibernação é interrompida com o apelo de um ou mais elementos para um encontro. Faz-se um "refresh" do repertório, dão-se uns abraços e lá se entra em outro período hibernatório até à próxima.
Foi o que aconteceu no passado sábado, a convocatória para casa do Mestre Abel. Depois dos abraços de amigos daqueles que já vão rareando, que não se viam há vários anos, e do magnífico almoço, começou o "refreshment". Não me refiro só ao "branco", digno do próprio Baco.
Ouviu-se o inconfundível acordeão do Abel, que já acompanhou a "Menina" do Pedro Barroso e a "Ópera do Bandoleiro". Aquilo é magia! Parece que recuámos 10 anos no tempo! Esquecem-se os mais de 60 anos, as danças e as cantigas voltam à memória e vá de dançar e cantar de modo que nos espantou. Embora sem ensaios, certamente não nos envergonharíamos numa volta aos palcos... É que, com o Abel, o impossível já se fez no ano passado....
E com este sentimento de rejuvenescimento, já com a noite bastante avançada, lá nos despedimos para mais uma hibernação.
Obrigado, Abel!
sexta-feira, 25 de julho de 2008
A culpa é do computador....
Esta utilíssima feramenta que é o computador passou a ser o bode espiatório de muita incompetência e cobardia no nosso país.
Devo esclarecer que considero o computador uma ferramenta, como a esferográfica, com potencialidades abissalmente maiores, embora em termos de inteligência seja tão dotado como um carro de bois. É uma simples peça de ferramenta e mais nada!
O que nos dá depende do que nós introduzirmos e do programa.
O que se passa é que, desde que se vulgarizou a sua utilização, se aparece uma conta de 1.000 € de portagens da Via Verde a um cidadão que nunca teve carro, logo se diz que a culpa é do computador e que o cidadão terá de pagar, reclamando depois no exercício dos seus direitos (?) democráticos e civis, etc., etc., etc. Ninguém assume que se trata de uma crassa asneira de quem introduziu os dados, ou do programa, e corrige imediatamente o erro.
Se uma professora quer emendar um formulário de concurso porque necessita de estar próximo de um filho gravemente doente, respondem-lhe que não pode porque o computador não permite essa alteração. Ninguém assume a responsabilidade de alterar uma situação humana, talvez para obter o tal "excelente" dos "yes-people".
Se alguém cometeu um erro, por má interpretação das instruções, no preenchimento do IRS, é condenado a pagar milhares de euros, sem ser ouvido e, quando esclarece e emenda a situação e solicita o não pagamento, é-lhe respondido que tudo é feito em computador, que terá de pagar no curto prazo dado (não interessa se pode ou não!) e depois de um longo processo se decidirá se lhe é devolvido ou não. Ninguém quer arriscar pensar, talvez em busca do tal "excelente"....
Se se extingue um serviço público (DGV), se dispersam os funcionários experientes e se criam 2 organismos com pessoal inexperiente e, neste movimento, se cria uma enorme confusão em que se perdem 42.000 processos de cartas de condução, obviamente que a culpa só pode ser do computador....
Em resumo, muita gente abdicou de pensar, passando as responsabilidades para o computador.
Sendo assim, poderíamos substituir alguns ministros e altos funcionários por computadores, talvez com ganhos em termos de sensibilidade humana, seguramente em termos de economia e possivelmente ainda de inteligência!
Devo esclarecer que considero o computador uma ferramenta, como a esferográfica, com potencialidades abissalmente maiores, embora em termos de inteligência seja tão dotado como um carro de bois. É uma simples peça de ferramenta e mais nada!
O que nos dá depende do que nós introduzirmos e do programa.
O que se passa é que, desde que se vulgarizou a sua utilização, se aparece uma conta de 1.000 € de portagens da Via Verde a um cidadão que nunca teve carro, logo se diz que a culpa é do computador e que o cidadão terá de pagar, reclamando depois no exercício dos seus direitos (?) democráticos e civis, etc., etc., etc. Ninguém assume que se trata de uma crassa asneira de quem introduziu os dados, ou do programa, e corrige imediatamente o erro.
Se uma professora quer emendar um formulário de concurso porque necessita de estar próximo de um filho gravemente doente, respondem-lhe que não pode porque o computador não permite essa alteração. Ninguém assume a responsabilidade de alterar uma situação humana, talvez para obter o tal "excelente" dos "yes-people".
Se alguém cometeu um erro, por má interpretação das instruções, no preenchimento do IRS, é condenado a pagar milhares de euros, sem ser ouvido e, quando esclarece e emenda a situação e solicita o não pagamento, é-lhe respondido que tudo é feito em computador, que terá de pagar no curto prazo dado (não interessa se pode ou não!) e depois de um longo processo se decidirá se lhe é devolvido ou não. Ninguém quer arriscar pensar, talvez em busca do tal "excelente"....
Se se extingue um serviço público (DGV), se dispersam os funcionários experientes e se criam 2 organismos com pessoal inexperiente e, neste movimento, se cria uma enorme confusão em que se perdem 42.000 processos de cartas de condução, obviamente que a culpa só pode ser do computador....
Em resumo, muita gente abdicou de pensar, passando as responsabilidades para o computador.
Sendo assim, poderíamos substituir alguns ministros e altos funcionários por computadores, talvez com ganhos em termos de sensibilidade humana, seguramente em termos de economia e possivelmente ainda de inteligência!
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Ajudemo-nos
Cá vai um pedido para nos ajudarmos a nós próprios, poupando o ambiente e ajudando o projecto AMI.
Só espero que o governo, com a coerência que lhe é reconhecida, não lhes aplique uma multa por concorrência ao petróleo. Nunca se sabe....
Talvez não saiba, mas o óleo alimentar que já não serve para si pode ainda ajudar muita gente. Em vez de o deitar fora, entregue-o nos restaurantes aderentes para que este seja recolhido. Além de diminuir a poluição do planeta, cada litro de óleo será transformado num donativo para ajudar a AMI na luta contra a exclusão social. Dê, vai ver que não dói nada.
Para participar neste projecto da AMI:
- Junte o óleo alimentar que usa na sua cozinha numa garrafa de plástico e entregue-a quando estiver cheia num dos restaurantes aderentes. Os restaurantes estão identificados e a lista completa está disponível aqui;
- Distribua folhetos pelos seus colegas. Solicite estes materiais, enviando um e-mail para reciclagem@ami.org.pt;
- Divulgue esta informação no seu site ou blog, incluindo o anúncio de rádio ;
- Encaminhe este e-mail para os seus colegas.
Press release:
Pela primeira vez, vai passar a existir em Portugal, uma resposta de âmbito nacional para o destino dos óleos alimentares usados. A partir de dia 15 de Julho, a AMI lança ao público este projecto que conta já com a participação de milhares de restaurantes, hotéis, cantinas, escolas, Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais.
A AMI dá com este projecto continuidade à sua aposta no sector do ambiente, como forma de actuar preventivamente sobre a degradação ambiental e sobre as alterações climáticas, responsáveis pelo aumento das catástrofes humanitárias e pela morte de 13 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
Os cidadãos que queiram entregar os óleos alimentares usados, poderão fazê-lo a partir de agora. Para tal, poderão fazer a entrega numa garrafa fechada, dirigindo-se a um dos restaurantes aderentes, que se encontram identificados e cuja listagem poderá ser consultada no site www.ami.org.pt.
Os estabelecimentos que pretendam aderir, recebendo recipientes próprios para a deposição dos óleos alimentares usados, deverão telefonar gratuitamente para o número 800 299 300.
Este novo projecto ambiental da AMI permitirá evitar a contaminação das águas residuais, que acontece quando o resíduo é despejado na rede pública de esgotos, e a deposição do óleo em aterro. Os óleos alimentares usados poderão assim ser transformados em biodiesel, fornecendo uma alternativa ecológica aos combustíveis fósseis, e contribuindo desta forma para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE). Ao contrário do que por vezes acontece com o biodiesel de produção agrícola, esta forma de produção não implica a desflorestação nem a afectação de terrenos, nem concorre com o mercado da alimentação.
São produzidos todos os anos em Portugal, 120 milhões de litros de óleos alimentares usados, quantidade suficiente para fabricar 170 milhões de litros de biodiesel. Este valor corresponde ao gasóleo produzido com 60 milhões de litros de petróleo, ou seja, o equivalente a cerca de 0,5% do total das importações anuais portuguesas deste combustível fóssil. A AMI dá assim a sua contribuição para favorecer a independência energética do país, conseguindo atingir este objectivo de forma sustentável e com uma visão de longo prazo, não comprometendo outros recursos igualmente fundamentais para o desenvolvimento da sociedade e para o bem-estar da população.
Segundo a União Europeia, o futuro do sector energético deverá passar pela redução de 20% das emissões de GEE até 2020, assim como por uma meta de 20% para a utilização de energias renováveis. Refere ainda uma aposta clara na utilização dos biocombustíveis, que deverão representar no mínimo 10% dos combustíveis utilizados.
A UE determina ainda que os Estados-Membros deverão assegurar a incorporação de 5,75% de biocombustíveis em toda a gasolina e gasóleo utilizados nos transportes até final de 2010 e o Governo anunciou, em Janeiro de 2007, uma meta de 10% de incorporação de biocombustíveis na gasolina e gasóleo, para 2010.
As receitas angariadas pela AMI com a valorização dos óleos alimentares usados serão aplicadas no financiamento das Equipas de Rua que fazem acompanhamento social e psicológico aos sem-abrigo, visando a melhoria da sua qualidade de vida.
Fundação AMIRua José do Patrocínio, 49 1949-008 Lisboa Tel. 218 362 100 Fax 218 362 199E-Mail: reciclagem@ami.org.pt Internet: www.ami.org.pt
Só espero que o governo, com a coerência que lhe é reconhecida, não lhes aplique uma multa por concorrência ao petróleo. Nunca se sabe....
Talvez não saiba, mas o óleo alimentar que já não serve para si pode ainda ajudar muita gente. Em vez de o deitar fora, entregue-o nos restaurantes aderentes para que este seja recolhido. Além de diminuir a poluição do planeta, cada litro de óleo será transformado num donativo para ajudar a AMI na luta contra a exclusão social. Dê, vai ver que não dói nada.
Para participar neste projecto da AMI:
- Junte o óleo alimentar que usa na sua cozinha numa garrafa de plástico e entregue-a quando estiver cheia num dos restaurantes aderentes. Os restaurantes estão identificados e a lista completa está disponível aqui;
- Distribua folhetos pelos seus colegas. Solicite estes materiais, enviando um e-mail para reciclagem@ami.org.pt;
- Divulgue esta informação no seu site ou blog, incluindo o anúncio de rádio ;
- Encaminhe este e-mail para os seus colegas.
Press release:
Pela primeira vez, vai passar a existir em Portugal, uma resposta de âmbito nacional para o destino dos óleos alimentares usados. A partir de dia 15 de Julho, a AMI lança ao público este projecto que conta já com a participação de milhares de restaurantes, hotéis, cantinas, escolas, Juntas de Freguesia e Câmaras Municipais.
A AMI dá com este projecto continuidade à sua aposta no sector do ambiente, como forma de actuar preventivamente sobre a degradação ambiental e sobre as alterações climáticas, responsáveis pelo aumento das catástrofes humanitárias e pela morte de 13 milhões de pessoas em todo o mundo, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.
Os cidadãos que queiram entregar os óleos alimentares usados, poderão fazê-lo a partir de agora. Para tal, poderão fazer a entrega numa garrafa fechada, dirigindo-se a um dos restaurantes aderentes, que se encontram identificados e cuja listagem poderá ser consultada no site www.ami.org.pt.
Os estabelecimentos que pretendam aderir, recebendo recipientes próprios para a deposição dos óleos alimentares usados, deverão telefonar gratuitamente para o número 800 299 300.
Este novo projecto ambiental da AMI permitirá evitar a contaminação das águas residuais, que acontece quando o resíduo é despejado na rede pública de esgotos, e a deposição do óleo em aterro. Os óleos alimentares usados poderão assim ser transformados em biodiesel, fornecendo uma alternativa ecológica aos combustíveis fósseis, e contribuindo desta forma para reduzir as emissões de Gases de Efeito de Estufa (GEE). Ao contrário do que por vezes acontece com o biodiesel de produção agrícola, esta forma de produção não implica a desflorestação nem a afectação de terrenos, nem concorre com o mercado da alimentação.
São produzidos todos os anos em Portugal, 120 milhões de litros de óleos alimentares usados, quantidade suficiente para fabricar 170 milhões de litros de biodiesel. Este valor corresponde ao gasóleo produzido com 60 milhões de litros de petróleo, ou seja, o equivalente a cerca de 0,5% do total das importações anuais portuguesas deste combustível fóssil. A AMI dá assim a sua contribuição para favorecer a independência energética do país, conseguindo atingir este objectivo de forma sustentável e com uma visão de longo prazo, não comprometendo outros recursos igualmente fundamentais para o desenvolvimento da sociedade e para o bem-estar da população.
Segundo a União Europeia, o futuro do sector energético deverá passar pela redução de 20% das emissões de GEE até 2020, assim como por uma meta de 20% para a utilização de energias renováveis. Refere ainda uma aposta clara na utilização dos biocombustíveis, que deverão representar no mínimo 10% dos combustíveis utilizados.
A UE determina ainda que os Estados-Membros deverão assegurar a incorporação de 5,75% de biocombustíveis em toda a gasolina e gasóleo utilizados nos transportes até final de 2010 e o Governo anunciou, em Janeiro de 2007, uma meta de 10% de incorporação de biocombustíveis na gasolina e gasóleo, para 2010.
As receitas angariadas pela AMI com a valorização dos óleos alimentares usados serão aplicadas no financiamento das Equipas de Rua que fazem acompanhamento social e psicológico aos sem-abrigo, visando a melhoria da sua qualidade de vida.
Fundação AMIRua José do Patrocínio, 49 1949-008 Lisboa Tel. 218 362 100 Fax 218 362 199E-Mail: reciclagem@ami.org.pt Internet: www.ami.org.pt
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