domingo, 1 de fevereiro de 2009

3 de Fevereiro de 1927

Neste post não se pretende historiar a revolta de 3 de Fevereiro de 1927, mas somente registar a visão de quem viveu os acontecimentos por dentro e involuntariamente. O resto é para os historiadores.

Nessa noite o cabo Faria chefiava a guarda ao Hospital Militar do Porto. Fazia 1 ano que tinha assentado praça e tinha-lhe sido fácil ascender àquele posto por ter habilitações literárias razoavelmente superiores às dos seus camaradas soldados. Tinha o 4.º ano de Comércio do Colégio Almeida Garrett. Recebeu ordens para regressar imediatamente com os seus homens ao quartel do regimento de Infantaria 18, a que sempre pertencera, ali na Praça da República.

Quando chegou ao quartel, distribuíam-se munições a toda a gente e, como tinha a especialidade de apontador da metralhadora Lewis, foi-lhe dada ordem para avançar com uma força que ia para o Jardim da Moreda, na rua Santos Pousada.

Entretanto foi apreendida uma moto com side-car e, não havendo condutor, foi perguntado quem estava habilitado a conduzir aquilo. Como tinha carta de moto, o cabo Faria deixou a metralhadora e foi fazer aquilo que era a sua diversão preferida: andar de moto. Seguiu outro com a metralhadora.

Recebeu ordens para conduzir um oficial e lá foi ele para o Quartel General, ali junto à Batalha, onde já se começavam a cavar trincheiras debaixo do fogo da Artilharia da Serra do Pilar.

Da Batalha seguiu com o oficial para Metralhadoras 3, ali em frente ao palácio dos Carrancas, hoje Museu Soares dos Reis, onde lhe comunicaram que estava preso e teria de trabalhar para os novos chefes, distribuindo aguardente pelas trincheiras.

Destino de soldado! Já era a segunda vez que lhe acontecia mudar de campo nestas coisas das revoluções. A primeira tinha sido poucos meses antes, em 28 de Maio de 1926, quando tinha ido com o seu regimento para Norte, a fim de combater as tropas revoltosas de Gomes da Costa e, depois de ir a pé até Famalicão, voltar ao Porto integrado nas tropas que ia combater. O seu regimento tinha mudado de chefe. Como continuava a andar de moto, tudo bem. O resto era lá com os políticos...

Correu a notícia de que o apontador da metralhadora na rua de Santos Pousada tinha morrido. A palmeira ali existente, ainda hoje mostra as marcas das balas. Alguém que não tinha sabido da história da moto foi dizer à mãe do cabo Faria da sua morte. A senhora e a filha vestiram o correspondente luto.
Continuou com a distribuição do suplemento de aquecimento naquelas noites frias pelas trincheiras instaladas, nomeadamente na Praça da Batalha, onde os revoltosos instalaram o seu comando no teatro S. João.
O frio era muito e os silvos das munições e as explosões eram um ruído constante. Cadáveres por toda a baixa. No cruzamento das ruas de Antero de Quental e Constituição o residente no andar por cima da farmácia Maciel veio à varanda ver a revolução. Uma granada de artilharia arrancou-lhe a cabeça. Um esquadrão de Cavalaria 7, de Aveiro, entrou a galope na ponte D. Luís, aos vivas à revolução, pensando enganar os revoltosos entrincheirados à saída da ponte. Foram dizimados à metralhadora. Cavalos feridos e espavoridos espalharam-se pelas ruas circundantes.
O motociclista, numa vaga, lá conseguiu visitar a mãe na Rua da Alegria, onde desfez o equívoco da sua morte.
No dia 7 deu-se a rendição dos revoltosos e o cabo voltou ao seu regimento, onde foi detido (já ia sendo hábito!) e acusado de colaborar com os revoltosos, arriscando-se a ser deportado com os outros. Valeu-lhe a honestidade do oficial, também preso, que declarou ter estado sempre às ordens dele e ser ele o responsável. Nesse tempo, os chefes sabiam sê-lo e assumiam as suas responsabilidades!
Tudo isto me foi contado diversas vezes pelo cabo Faria, meu pai, que fez 49 anos de serviço militar efectivo, para demonstrar a monstruosidade de uma guerra, muito mais de uma guerra civil. É em memória dele que aqui fica o testemunho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Estupidez 24

Os noticiários de hoje da RTP, além dos discursos fortes, inteligentes e humanos do novo presidente Obama, brindaram-nos, por oposição, com declarações fracas, estúpidas e desumanas de um senhor que pelos jeitos é administrador da empresa adjudicatária do serviço Saúde 24.
De resto, nos mesmos noticiários, o sr. Director-Geral da Saúde já tinha classificado os administradores de tal empresa de "incompetentes para lidar com enfermeiros".

Argumentam os enfermeiros despedidos, ao que parece por fraca produtividade, que não podem cumprir com os curtos tempos de atendimento determinados pela empresa por, em obediência à sua consciência profissional, necessitarem de recolher todo um conjunto de informações sobre os utentes, que lhes permita um aconselhamento consciente.

Argumenta o tal senhor administrador que "os operadores têm obrigação de fazer o que lhes mandam e mais nada!", mais argumentando que cumpre escrupulosamente o contratado com o Estado. Estão os profissionais de enfermagem reduzidos à condição de telefonistas de "call center"!

Ora aqui está a demonstração da ignorância do senhor: os doentes não se tratam com ordenamentos jurídicos, mas com competência profissional de quem tem competência para o fazer.

Daqui fica também uma boa amostra das consequências das parcerias público-privadas na saúde tão propagandeadas pelo governo. É sabido que às empresas só interessa o lucro e que, quando misturamos lucro com tratamento de doentes sem o devido controlo, quem perde são os doentes.

Bem podem limpar as mãos à parede!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O estado da Nação

No debate na Assembleia da República da passada quarta-feira, houve dois factos que me deram que pensar.

Um foi anunciada a criação de um banco nacional de células estaminais. Nada mais acertado nesta ocasião. Embora de imediato possa parecer não ter grande utilidade, dada a ainda incipiente utilização da medicina molecular, é a medicina do futuro e convém que existam as reservas quando tais tratamentos se generalizarem.

Não me espanta que apareçam agora as empresas já detentoras do rendoso negócio (cerca de 1.000 € por colheita) a acusarem o Estado de concorrência desleal, como acontece com os notários.

Outro facto foi o plágio do sr. primeiro-ministro ao dr. Durão Barroso quando deselegantemente pôs em causa a legitimidade de uma deputada dos Verdes. Será que também se quer candidatar a um lugarzito na UE?

É que são tantas as semelhanças, desde a hostilidade para com os funcionários públicos, às atitudes arrogantes, que já só lhe falta arranjar um nome de peixe. Os outros nomes também já lhos chamámos todos....

sábado, 3 de janeiro de 2009

Uma réstia de esperança

Ílhavo. Hoje à tarde.

Um cão, com olhos de Husky, está enrolado no passeio, todo molhado, a tremer de sofrimento, com um olhar de quem pede ajuda. Talvez tenha sido atropelado.

Juntam-se pessoas. Uma arranja carne e água numa loja próxima. O animal devora rapidamente a carne e parece mais calmo. Outra corre à clínica veterinária ali perto. Está fechada, mas tem um número de contacto urgente. Telefona-se ao médico, que aparece passados alguns minutos. Entretanto alguém chamou também os serviços da Câmara Municipal, que não tardam.

Leva-se o corpulento cão na carrinha da Câmara para a clínica, onde é observado e medicado. O médico aconselha a que seja mantido em ambiente morno, pelo menos deitado sobre uma manta ou jornais, não havendo condições logísticas para que fique na clínica. Resta o canil camarário, mas os solícitos funcionários informam não haver mantas para o ter. Logo uma vizinha dá umas mantas velhas que tinha lá em casa. A carrinha leva-o, antes que acabe o efeito da anestesia que foi necessária.

Um dos presentes paga ao médico, que só aceitou o valor dos medicamentos aplicados.

Digam lá que, neste início de um ano que se prevê difícil, isto não é uma réstia de esperança!

À mesma hora a que, na Faixa de Gaza, homens, ainda parentes, se matavam barbaramente, em Ílhavo gera-se uma corrente de solidariedade em volta de um pobre cão. A Câmara e os moradores juntam os braços para minorar o sofrimento do "irmão cão", sem perguntar quem paga o quê ou a quem pertence o cão.

É este espírito que pode salvar o mundo. Vamos cultivá-lo!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Do Natal e suas mensagens

Estamos naquela época do ano em que quase todos os povos do hemisfério Norte festejam o solstício de Inverno e consequente renovação da Natureza com os dias a crescerem. É a festa do Sol e da luz.

A Igreja Cristã escolheu esta época para situar o nascimento de Cristo, associado à nova luz do mundo. É irrelevante a data exacta do nascimento. O importante é a sua mensagem e os seus actos.

Também é a época em que tradicionalmente se festejam a família e a solidariedade, desdobrando-se os políticos em apologias dos velhinhos, a que não ligaram peva todo o ano, dos desempregados, cujo desemprego não quiseram evitar a bem da economia, e dos meninos coitadinhos, mas a cujos pais não se dão as condições para deles cuidarem.

De entre todas as já fastidiosas, por repetidas, mensagens, sobressaiu uma, curiosamente de um "inimigo" do cristianismo, o islâmico fundamentalista presidente do Irão, que pôs a pergunta que todos os que se intitulam cristãos deveriam pôr a cada hora do dia: "Se Cristo vivesse agora, que posição tomaria perante os problemas actuais?"
Por uma pergunta semelhante foi S. Francisco de Assis considerado herético, escapando por pouco à correspondente execução.

Sim. Que posição tomaria ao ver a sua doutrina transformada em Igreja institucional pelo imperador Constantino para servir de cimento agregador do império a desmoronar-se. Não seria "dar a César o que é de Deus"?

Que posição tomaria ao ver praticar em seu nome os roubos, violações e atrocidades dos cruzados medievais que, em nome da religião, só pretendiam o saque e as honrarias cavaleirescas?

Que posição tomaria ao ver, em seu nome, os genocídios da Santa Inquisição?

Que posição tomaria perante empresários que se intitulam seus fervorosos servidores e não esitam em roubar escandalosamente aqueles que neles confiam?

Certamente apoiaria homens como Francisco de Assis, António Vieira e os padres da "Igreja da Libertação" da América do Sul.

Pensemos nisto e certamente contribuiremos para um melhor 2009.

FELIZ ANO NOVO!

sábado, 29 de novembro de 2008

Vamos falar de avaliações e carreiras

Desde 2002 que os sucessivos governos se têm afadigado a injectar na população a "verdade oficial" de que anteriormente os funcionários públicos não eram avaliados e que agora surge a salvação da Pátria e, quem sabe, do próprio planeta, com o estabelecimento do sistema SIADAP, o sistema de avaliação dos professores e respectivas cotas (questão de fé!).

Ora vamos lá analisar a verdade dos factos. É que eu aprendi a não gostar de verdades oficiais.

Antes do governo do dr. Barroso, os funcionários eram já avaliados há muitos anos. Todos os anos as chefias preenchiam uma ficha de avaliação dos seus subordinados, onde eram avaliados os parâmetros qualidade de trabalho, quantidade de trabalho, aperfeiçoamento, assiduidade e pontualidade, responsabilidade, iniciativa e criatividade, relações com o público, relações humanas no trabalho, respeito pela segurança, conservação do material e capacidade de direcção, sendo retirados os parâmetros que não se aplicavam ao funcionário em concreto.
A cada parâmetro correspondiam 5 perguntas objectivas, que permitiam a classificação de 1 a 10. Ao fim, fazia-se a média das classificações, sendo que se classificava de BOM quem tivesse 6 ou mais e MUITO BOM acima de 9.

Só quem fosse classificado de BOM poderia progredir na carreira, tanto a nível de escalões (que substituíram as diuturnidades e a que asneaticamente chamam de promoções automáticas) quer de acesso a concurso para promoção. O MUITO BOM implicava diminuição de 1 ano no tempo na categoria para ter acesso a concurso de promoção.

Nesse tempo, que se teima em classificar de "balda", as promoções na carreira eram por concurso e não por cartão partidário ou simpatia das chefias.

Claro que se poderá arguir que 60% é pouco para se ser considerado BOM. Concordo plenamente com os que assim pensarem. Deveria ter-se criado a classificação de SUFICIENTE entre os 50 e os 70% e o BOM só daí para cima.

O governo do dr. Barroso, com a responsabilidade directa da dr.ª Ferreira Leite (que nunca esqueça!), na sua fúria privatista, impôs a aplicação de um sistema vindo da indústria e do comércio, o SIADAP, que nunca se conseguiu aplicar decentemente e duvido muito que se consiga. É que os objectivos de uma actividade privada, obviamente virada para o lucro e para fazer o cliente consumir o mais possível, não podem aplicar-se a serviços públicos, cuja função é servir as necessidades dos utentes com a máxima economia possível.

Por outro lado, com a finalidade óbvia de escolher quem progride na carreira, criaram-se as famigeradas "cotas" de avaliação, que introduzem logo à partida um enviesamento na seriedade do sistema. Quando se impõem limites à quantidade de determinada classificação, está-se logo a introduzir a mais abjecta injustiça.

Se à entrada de um exame um professor dissesse aos examinandos: "- Independentemente do que fizerem, só 25% é que podem ter mais que 16", que lhe chamavam? Eu chamava-lhe vigarista!

Argumentam os defensores de tão estranha coisa que, se não fosse assim, eram todos promovidos. Asneira! Todas as carreiras tinham determinado número de lugares em cada categoria. Como havia concursos, só os melhores eram promovidos, se e quando houvesse vagas.

Claro que concordo que todas as carreiras tenham diversas categorias, incluindo os professores, uma vez que, como é natural, as pessoas vão aumentando as suas competências com a experiência profissional. Não conheço nenhum exército só de generais...

Julgo ter contribuído para a reposição da verdade, sendo que os factos que relato podem ser verificados por qualquer um que o queira fazer. É só ir ver às leis.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Integracionismo, multiculturalismo e interculturalismo

Acontecimentos de um passado relativamente recente envolvendo indivíduos de origens culturais diferentes, principalmente na região da Grande Lisboa, trouxeram a terreiro defensores dos mais variados conceitos, que podemos agrupar nos três que constituem o título desta reflexão: integracionismo, multiculturalismo e interculturalismo.

Vou tentar analisar a viabilidade e utilidade prática de cada um.

Os integracionistas radicais defendem que todos os indivíduos de origem cultural diferente da da maioria estabelecida, devem integrar-se totalmente na prática, usos e costumes dessa maioria, com abandono, e até repúdio, da sua herança cultural. Em extremo, todos deveriam passar a gostar de bacalhau com batatas e couratos e ser cristãos. Foi o exemplo pouco edificante da Santa Inquisição e é a prática, não mais edificante, dos regimes ditatoriais, portanto a rejeitar.

Por outro lado, os defensores radicais do multiculturalismo defenderão que cada um actue de acordo com a sua origem cultural. Para isto ser possível e não termos de aceitar, por exemplo, que os cidadãos ingleses conduzissem pela esquerda em Portugal, teríamos de ir para as soluções também nada edificantes do apartheid, dos guetos ou das reservas de índios das Américas. Rejeito totalmente.

Se estudarmos a história do povoamento desta terra onde hoje vivemos, chegaremos à conclusão de que os descendentes daquele povo que deixou a região onde hoje é o triste Darfur há 150.000 anos foram chegando aos poucos a este território, uns via Mediterrâneo, outros via Pirineus. Já vejo alguns a arrepiarem os cabelos (rapados) porque o avô era negro! Naturalmente que um povo que chegava não ia integrar-se imediatamente na cultura, usos e costumes dos que já cá estavam há séculos. Para coexistirem, certamente estabeleceram procedimentos comuns, independentemente de continuarem com as sua práticas culturais, obviamente na parte que não ofendesse esses procedimentos, e foram dando contributos para a criação gradual de uma nova cultura. Eles mostram-nos o caminho!

Defendo que a solução está no interculturalismo, que consiste em se estabelecer uma plataforma de coexistência comum, com a contribuição de todos, mantendo cada um a sua liberdade religiosa e cultural, com excepção das práticas que ofendam essa plataforma de coexistência plasmada nas leis.

É a tradição deste povo de Portugal, descendente das mais variadas culturas e que contribuiu em muito para o enriquecimento de muitas outras. Disso podemos e devemos orgulhar-nos!