quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Vida de enfermeiro

Os meus amigos Celso e Alcina enviaram-me, em forward, um texto que relata o dia de um enfermeiro em visita domiciliária.

Considero o texto um testemunho exemplar da dedicação, abnegação, profissionalismo e respeito pelo "outro" que tantas vezes testemunhei ao longo de 37 anos de trabalho ombro-a-ombro com aqueles profissionais tão maltratados e vilipendiados que nem o seu grau académico é devidamente reconhecido pelo mesmo Estado que lho conferiu.

É que, embora o texto se refira a visitas domiciliárias, as situações nos hospitais, e sentimentos correspondentes, não são diferentes. Lembra-me de ver algumas enfermeiras a chorar perante a impotência de manterem a vida ao seu doente.

Os locais descritos são, infelizmente, a imagem real de grande parte do País, que se esconde atrás dos hiper-centros comerciais, dos hotéis de luxo e do que se considera publicável pela comunicação social.

Como defendo que as pessoas devem ser melhor informadas do que se passa atrás das batas brancas e outros aspectos visíveis das instituições de saúde, não resisto a transcrever o texto recebido, com a minha homenagem a tão abnegados profissionais. Cá vai:

A casa dos outros

A D. Maria tem 47 anos... e um cancro do ovário. O marido, já reformado, quis satisfazer-lhe o desejo de não morrer no hospital.
Têm uma filha, a acabar o curso na universidade: boa aluna, em altura de exames... precisa de estudar e a sua mãe está a terminar os seus dias de vida no quarto ao lado.
A D. Maria está em cuidados paliativos... e sabe disso! Já não quer comer, bebe apenas alguns goles de água. Tem um soro para que lhe possamos dar a medicação. Tem uma perfusão permanente de morfina, cuja eficácia não é total. A barriga... como descrever? Tem uma colostomia,que mal funciona... está inchada, como um balão que vai rebentar... e de facto, começa a rebentar: abrem-se fístulas espontaneamente e as fezes saem por todo o lado. O cheiro? Não consigo descrever! O corpo? Pele e osso, para ser mais exacta! Há metástases no fígado, no pulmão... a respiração é ofegante... já lá vão 5 semanas...
Diariamente desloco-me a casa da D. Maria, duas ou três vezes: para dar medicação, para cuidar daquela barriga... para falar com ela, para dar o apoio possível ao marido que tenta fazer o que sabe e o que pode. O sofrimento? É grande... de todos!
Mas eu sou enfermeira: não é suposto que me seja difícil ver sofrimento dos outros!
Tudo se torna mais difícil quando estou a sós com a D. Maria, que me agarra na mão e me pede insistentemente... que termine com a vida dela! Os apelos são cada vez mais frequentes, mais desesperados: 'Por favor! Se tem compaixão de mim, injecte-me qualquer coisa para terminar de vez com esta agonia! Pela sua felicidade, por favor, acabe com a minha vida...'
E eu tenho compaixão... mas nada posso fazer! A dor não se consegue controlar, é impossível cuidar dela sem lhe provocar ainda mais dores? O que faz uma enfermeira? Vai-se embora, para casa, a sentir-se inútil... A sentir-se incapaz... Ao ouvir repetidamente aquele apelo... e a desejar, embora lhe custe muito, que a eutanásia fosse possível! Mas, se fosse possível... e a praticasse, como iria para casa?

Mas para quê falar disto?... Os enfermeiros não têm sentimentos!

Saio dali, continuo o meu trabalho domiciliário: agora entro numa barraca, onde chove dentro, onde há ratos, pulgas, lixo... onde o cheiro nos faz perder o apetite...
O Sr. José tem 87 anos e vive sozinho. Tem uma úlcera varicosa. Tenho que fazer o penso. Não há água... nem sequer as mãos posso lavar. Passo-as por álcool à saída e lavo-as na casa do próximo utente.Chove desalmadamente. Volto para o carro, pelo meio da lama. Carrego as malas do material para os cuidados.

Mas para quê falar disto?... A minha profissão não é penosa!...

Próxima paragem: D. Joaquina, 92 anos, vive numas águas furtadas, 5ºandar, sem elevador. Subo as escadas de madeira, apodrecidas,obscuras, com medo que alguma tábua se parta. Carrego com as malas do material...
A D. Joaquina vive com uma irmã, naquele espaço exíguo. Teve uma trombose.Tem úlceras de pressão. O tecto é baixo, inclinado, a cama está encostada à parede. Para lhe prestar cuidados tenho que me pôr de joelhos no chão e ficar inclinada.
Quando me tento endireitar as minhas costas doem... tenho as pernas dormentes... pego nas malas, desço as escadas... continua a chover...procuro o carro que tive que estacionar a 500 metros!

Mas, para quê falar disso? Os enfermeiros não se queixam...

Próximo desafio: a Helena! Toxicodependente... tem SIDA, continua a consumir... com sorte, ainda lá encontro o traficante em casa... mas as enfermeiras não têm medo!

Continuo: o Sr. Manuel é diabético, divorciado, tem 50 anos, foi amputado de uma perna, vive sozinho num 3º andar. Há 2 anos que não sai de casa: como fazer? Das poucas pessoas, com quem convive, são as enfermeiras! Precisa de conversar... como lhe dizer que ainda tenho mais 4, ou 8 pessoas e que não tenho tempo para estar ali a ouvi-lo?

Mas para quê falar disso? Os enfermeiros só dão injecções e fazem pensos... tudo o resto é supérfluo!

Para quê falar da solidão do outro, da minha impotência, do pedido da eutanásia, da chuva, do frio, do sol, do calor, do mau cheiro, das minhas dores nas pernas, do material do penso a conspurcar o meu carro (a seguir vou buscar a minha filha à escola!), das dores nas costas,do medo, da insegurança, do ventre desfeito, da tristeza, da compaixão...

Não, a penosidade e o risco devem ser uma ilusão minha...

Não, as enfermeiras não choram!

Mas sabem?... as lágrimas que mais doem são aquelas que não correm!'

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Da pena de lousa ao Magalhães

Hoje, bombardeado pelas referências noticiosas ao Magalhães, o computador para os miúdos da primária, dei comigo a recordar os tempos da minha escola primária e a evolução dos meios de escrita e de cálculo desde aí.

Sim, porque continuo a afirmar que o computador é uma ferramenta, como a esferográfica, que pode ser benéfico ou maléfico conforme o uso que se fizer dele. Não faz milagres nem substitui o professor.

Mas entrando nas recordações, quando entrei para a primária, em 1953, as escolas também não tinham aquecimento nem espaços desportivos, nem transportes, nem cantina, só que ninguém as fechava por causa disso. Escrevia-se nos cadernos e nas provas (havia várias sem que ficássemos psicologicamente afectados) com canetas de molhar no tinteiro, que fazia parte da carteira de madeira. As coisas temporárias de acompanhamento das aulas (principalmente contas) faziam-se num pequeno quadro de ardósia- a lousa -, onde se escrevia com um pedaço do mesmo material - a pena de lousa -, sendo que duas custavam 1 tostão.

Reprovava-se (ficava-se retido) em todas as classes, só se avançando se se soubesse mesmo a matéria.

Passado para o liceu, em 1956, já se escrevia com caneta de tinta permanente, o que nos conferia um ar "importante".

Quando, talvez por 1958, apareceu a esferográfica, foi considerada objecto pernicioso, sendo proibida nos pontos (testes), exames e documentos oficiais. Todos estes escritos tinham de ser feitos a tinta líquida azul. O regime abominava "modernices". Não obrigarem à pena de pato, já era um grande salto tecnológico e demonstração de modernidade!

Mais tarde, 1963, no ensino superior, já se podia utilizar a régua de cálculo, ferramenta utilíssima e bastante rápida para a realização de cálculos complexos. Nessa época, um computador ocupava um andar e não tinha maior capacidade que a mais barata das nossas calculadoras de bolso actuais. Não se vendiam. As empresas de informática - IBM, NCR - alugavam-nos aos bancos e outras empresas do género.

Hoje, nas discussões e comentários sobre o assunto, ainda lá estavam os que consideram o computador pernicioso - já aceitaram a esferográfica! - e causador de os meninos não saberem nada. Outros, no extremo oposto e com a mesma dose de ignorância, acham que ficam resolvidos todos os problemas da educação. Como se a ferramenta ensinasse alguém a trabalhar!

Se queremos formar os jovens para o futuro, claro que temos de os habituar a utilizar os meios do mundo moderno, o que não impede, pelo contrário, que saibam fazer os cálculos e a escrita de modo manual, até para programarem o computador.

Benvindo, Magalhães!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Há cada explicação....

Há dias, a propósito da polémica das grandes melhorias na performance do ensino, que alguns ligaram ao "aconselhamento" aos professores para que não houvesse retenções (agora não se chama chumbo por razões ecológicas relacionadas com a nocividade dos metais pesados...), um senhor ministro, que se intitulou professor catedrático, veio negar quaisquer interferências do governo em tais matérias, mas defender o fim das retenções.

Dizia o senhor ministro haver um estudo que demonstrava que os alunos que estavam num ano escolar correspondente à sua idade eram melhores alunos que aqueles que estavam num ano escolar atrasado em relação à idade, concluindo-se que os segundos não eram bons alunos por terem sido retidos, colocando-os em anos atrasados.

BRILHANTE!!!!! Os alunos que estão em anos escolares correspondentes à sua idade não estão lá por serem bons alunos. São bons alunos porque estão lá!!!!!

Concluía o senhor ministro que, se evitássemos as retenções, colocando todos os alunos nos anos correspondentes à sua idade, acabaríamos com o insucesso escolar. Notável!!!

Seguindo o raciocínio do senhor ministro, se dermos a um licenciado em direito um certificado de doutoramento em física nuclear, corremos o risco de ter um prémio Nobel da física.

Para ajudar a dar-nos um nó na inteligência, vêm agora os senhores das petrolíferas explicar que os combustíveis aumentaram imediata e brutalmente devido ao aumento dos preços do petróleo, sendo irrelevante para o caso a queda livre do dólar em relação ao euro. Já quando os preços do petróleo baixam drasticamente, os combustíveis não podem baixar imediatamente devido à pequena subida do dólar em relação ao euro.

Então em que ficamos? A fórmula só funciona num sentido? A relação euro-dólar só é relevante para baixar os preços?

Para rematar as explicações esfarrapadas, parece que o governo não quer considerar na carreira de técnicos superiores (licenciados) os enfermeiros e técnicos de diagnóstico e terapêutica, cujos cursos são de licenciatura.

Porquê? Será por causa do título genérico de "doutor", usado abusivamente pelos licenciados em geral? Depois haveria confusões com os médicos, farmacêuticos e outros? Então e o "respeitinho"?

Será que há licenciaturas de 1.ª e de 2.ª?

Desculpem estes desabafos, mas tenho a sensação de que, ou me andam a tentar vigarizar ou estou atacado com o síndroma da PDI.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Grandes lições...

Ontem, a propósito de uma experiência inédita no campo da física das partículas, que se diz ir dar uma ideia aproximada do que se passou imediatamente a seguir ao big-bang, tivemos oportunidade de assistir nos diversos canais de televisão a memoráveis lições de ciência e humildade.

Desde logo eminentes físicos explicaram a complexa experiência de modo a toda a gente perceber. Todos afirmaram não se tratar do fim das pesquisas científicas, mas do início de uma nova fase de investigação. Isto é, quanto mais se sabe, mais consciência se tem do que há ainda para saber. Posta perante o problema do início de tudo, uma cientista disse mesmo que se supõe que o big-bang foi o resultado do choque de partículas. Mas onde estavam as partículas? De onde vieram? Início?

Também proeminentes representantes da Igreja Católica se pronunciaram a favor dos progressos científicos, classificando as teorias criacionistas do "Génesis" de mitologia que nada tinha de científico.

Enfim, um dia memorável de humildade, onde se viu que as pessoas que realmente têm valor e saber o exprimem com simplicidade.

Grandes lições para todos nós, especialmente para aqueles que julgam que complicar as explicações os tornam credores de grande admiração.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Seguranças, inseguranças e outras andanças

Desde há cerca de um mês que vimos sendo bombardeados com notícias de criminalidade violenta a níveis a que não estamos habituados.

Os responsáveis políticos tentam demonstrar-nos, com a eterna estatística, que nada de anormal se passa, tratando-se de factos normais empolados pela comunicação social. Claro que os assassinados, gravemente feridos e roubados são meros "danos colaterais"... Onde é que eu já ouvi isto?!

Os polícias queixam-se de que arriscam a vida para prender um criminoso, que será imediatamente libertado pelo tribunal, saindo até antes do polícia, e de que só podem usar a força depois de mortos.

Os juízes dizem que a culpa é dos legisladores, pois apenas lhes compete cumprir escrupulosamente a lei.

Os governantes, e legisladores, acusam os juízes de não interpretarem correctamente os textos legislativos (onde chega a iliteracia...!).

Alguém, que mantém o mau hábito de pensar, perguntou-me: "Já reparaste que no ano anterior a eleições há grandes surtos de criminalidade, incêndios florestais e outros factos que tentam pôr a nu as fragilidades dos governos e do sistema"?

Claro que não posso concordar com a desconfiança implícita, que toca as raias da aleivosia (ai a influência das feiras medievais...) e das teorias da conspiração. Pero, que las hay, hay!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Um país de campeões

Desde há vários anos que somos diariamente injectados com o modelo social a que o prof. Cavaco, enquanto primeiro-ministro, chamou de "sociedade de sucesso" e que não é mais que a sociedade dos "winners" e dos "loosers" e relativos "taxpayers".

Os portugueses, que se sentem "taxpayers", exigem a todos aqueles que tenham algum subsidiosito do Estado, portanto dos seus impostos, que sejam indiscutivelmente "winners". Afinal não passam de seus "empregados" com a obrigação de serem os melhores nas funções que lhes são confiadas, mesmo que o subsídio mais mereça a designação de esmola.

Da selecção de futebol não se exige menos que serem campeões da Europa e do Mundo. Os "patrões" já fizeram a sua parte, contribuindo para o subsidiosito e pondo a bandeirinha na janela.

Agora dos atletas olímpicos exige-se que traga uma medalha de ouro cada um. Caso contrário, são uma cambada de calaceiros que andam a passear à nossa custa. Não interessa se anteriormente, fruto de muito esforço pessoal, têm resultados muito acima do que seria de esperar das condições de que dispõem, tendo até já sido campeões do mundo.

Claro que para quem está sentado a ver as provas na televisão enquanto trinca uns tremoços e escoa umas bejecas tudo é muito fácil e só não ganham porque não querem.

É que os portugueses gostam muito de falar de desporto, assunto em que se julgam muito entendidos. Quanto a praticá-lo, ficam-se pelo levantamento do copo e lançamento da perisca.

Quando essas modalidades passarem a disciplinas olímpicas, haverá certamente chuva de medalhas de todos os metais!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Um Grupo impar

Em 1991, um grupo de portugueses a trabalhar em Macau, alguns com experiências em grupos de música tradicional, decidiu formar um grupo para dançar e cantar umas coisas lá da Terra, sempre bom pretexto para um são convívio. Assim nasceu o GDCCM, Grupo de Danças e Cantares do Clube de Macau.

Como a rapaziada gostava mesmo daquilo e o Mestre era dos melhores, atingiu-se um nível que levou ao apoio do governo do general Rocha Vieira como a imagem de marca da cultura portuguesa naquelas paragens.

E lá foram eles por tudo quanto era sítio, de Pequim a Wuxi (inauguração da réplica da Torre de Belém à escala 3/4), de Kagoshima e Osaka a Seul e Taejon (Expo 93 e lançamento, com o dr. Mário Soares, da Expo 98), de Bangkok e Ratchaburi a Singapura e muitos outros lugares das partes do Oriente, e até em Portugal.

Com a devolução de Macau à China, em 1999, grande parte dos elementos voltou aos seus lugares dos quadros em Portugal e o Grupo como que entrou em hibernação, tendo deixado em Macau um "filho", que se denomina Grupo de Danças e Cantares de Macau.

De vez em quando a hibernação é interrompida com o apelo de um ou mais elementos para um encontro. Faz-se um "refresh" do repertório, dão-se uns abraços e lá se entra em outro período hibernatório até à próxima.

Foi o que aconteceu no passado sábado, a convocatória para casa do Mestre Abel. Depois dos abraços de amigos daqueles que já vão rareando, que não se viam há vários anos, e do magnífico almoço, começou o "refreshment". Não me refiro só ao "branco", digno do próprio Baco.

Ouviu-se o inconfundível acordeão do Abel, que já acompanhou a "Menina" do Pedro Barroso e a "Ópera do Bandoleiro". Aquilo é magia! Parece que recuámos 10 anos no tempo! Esquecem-se os mais de 60 anos, as danças e as cantigas voltam à memória e vá de dançar e cantar de modo que nos espantou. Embora sem ensaios, certamente não nos envergonharíamos numa volta aos palcos... É que, com o Abel, o impossível já se fez no ano passado....

E com este sentimento de rejuvenescimento, já com a noite bastante avançada, lá nos despedimos para mais uma hibernação.
Obrigado, Abel!