terça-feira, 24 de julho de 2007

A A14 e os incentivos à natalidade

Não. Não vou fazer outra vez o choradinho dos nascimentos nas estradas. Acontece, sempre aconteceu e não há modo de impedir que aconteça.
Vou contar a história de uma jovem enfermeira, vamos chamar-lhe A14 porque a A17 ainda não está acabada, a trabalhar a contratos a termo certo num hospital, há cerca de dois anos e meio.
Esteve sempre num serviço onde trata com a maior dedicação de equipamentos extremamente sensíveis, no valor de vários milhares de euros, cujas avarias custam, no mínimo, 3 mil euros.
À custa dela, sempre procurou melhorar os conhecimentos relacionados com o serviço e os seus equipamentos, frequentando, a seu encargo, todas as formações e congressos possíveis.
Na sua condição de contratada a prazo, chegou a ser obrigada, com ameaças de não renovação do contrato, a trabalhar muito para além do horário normal, só porque era o horário possível para o médico com quem trabalhava.
Todo este interesse e dedicação teve a contrapartida normal na Administração Pública actual: FOI DESPEDIDA!
Perdão. Não foi despedida porque não tinha vínculo ao hospital. A verdade é que não lhe foi renovado o contrato com o argumento, publicado num jornal lá da terra, de que nenhum contratado a termo certo pode fazer 3 anos de contrato.
Se fizesse, tinham de a contratar sem termo...
Ah! Parece que também não tem cartão partidário...
Para além da estupidez de se perder todo o "know how" adquirido ao longo deste tempo e da dificuldade de transmitir esse conhecimento a uma nova pessoa, com possíveis repercussões no estado dos equipamentos, temos uma flagrante contradição com as apregoadas boas intenções do sr. Primeiro-Ministro.
Então prometem-se incentivos à natalidade, com aumentos de subsídios, e nega-se a segurança de emprego essencial a quem queira ter filhos?
É que, sem segurança no emprego, só um irresponsável se arrisca a ter filhos.
E a qualidade de "irresponsável" deve aplicar-se aos juizes (é da Constituição), mas nunca aos enfermeiros.
Claro que esta história é um "mix" de vários casos de que vou tendo conhecimento.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Fidelidade, lealdade e avaliações

O sr. Primeiro-Ministro confessou-se chocado ao saber do caso dos dois professores a que foi negada a reforma por juntas médicas da CGA. Já a ministra da Educação afirmou hoje 11/07/07) já saber do caso há algum tempo.
Acredito que o sr Primeiro-Ministro não soubesse do caso, porque está rodeado de "fiéis" e os fiéis só dizem ao chefe o que ele quer ouvir.
Na Administração Pública confunde-se muito lealdade com fidelidade.
O funcionário, no termo de posse , aceitação ou como queiram chamar-lhe, compromete-se a desempenhar com lealdade as funções que lhe são confiadas.
A lealdade é para com a função. Por exemplo, se o funcionário recebe uma ordem e vê que as consequências não serão as melhores, tem o dever de lealdade de o dizer a quem lhe deu a ordem.
Pelo contrário, a fidelidade implica nunca contrariar o chefe. É o caso dos "yes-men".
O funcionário fiel, que desistiu de pensar há muito tempo por temer o perigo de chegar a conclusões diferentes das do chefe, nunca terá boa classificação num concurso que não seja controlado pelo respectivo chefe, pois é incapaz de interpretar um diploma legislativo.
Será por isso que acabaram com os concursos?
O funcionário fiel é nomeado por escolha e, nas avaliações, cabe naqueles tais 25%!
Já o funcionário leal, diz ao chefe o que pensa melhor para o serviço, embora o possa contrariar, e discute a própria interpretação da legislação na aplicação à realidade.
Claro que, quando chega a hora das avaliações, o funcionário leal é preterido, fica nos 75% da ralé e nunca avançará na carreira porque, ainda que mude o chefe, por mudança da "cor" governamental, os chefes gostam sempre dos fiéis, que são muito flexíveis.
Por minha parte, jogo nos leais.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Da Figueira ao TGV

Li a notícia da promessa de ligação por caminho de ferro do porto da Figueira da Foz à rede nacional, através da linha da Beira Alta (Pampilhosa).
Felizmente que alguém pensou para a frente em termos de transportes e deu utilização à via que já existe no porto da Figueira há cerca de 5 anos e nunca foi utilizada.
Digo pensar para a frente, porque, em Portugal, falar em transporte ferroviário de cargas é pensar muito à frente, quase uma heresia. Nos países desenvolvidos, já se concluiu que é a melhor solução há mais de 50 anos...
O caminho de ferro nasceu em inglaterra, nos finais do século XVIII, para transporte das cargas das minas e desenvolveu-se sempre na perspectiva do transporte de cargas. O comboio de passageiros é um aproveitamento posterior e pouco rentável se separado das cargas.
Nos Estados Unidos, onde há várias companhias ferroviárias, só uma, a estatal Amtrak, faz transporte de passageiros. As outras, só cargas. Um economista americano do sec. XIX dizia mesmo que "um comboio de passageiros é uma nódoa na paisagem".
De facto, o transporte ferroviário é o mais económico e, numa época em que se faz questão das economias energéticas e de poluição, é o energéticamente mais eficiente, permitindo tirar das estradas milhares de camiões, nomeadamente com o sistema "roll-on; roll-off", em que a galera de um camião TIR é carregada no comboio na origem e descarregada num destino intermédio por um tractor, que a leva ao destinatário final.
Vamos pois ter o porto da Figueira ligado à Europa por caminho de ferro. É uma perspectiva de desenvolvimento do porto e da cidade.
O problema é que a "Europa" de que falei termina actualmente na fronteira entre a Espanha e a França. As bitolas das vias (distancia entre carris) não são compatíveis e, assim, um vagão não pode passar a fronteira sem mudar de rodados, o que não é prático.
É que, aquando da construção dos caminhos de ferro ibéricos, no sec. XIX, ainda estavam frescos os horrores das invasões francesas e fez-se uma linha não compatível para impedir uma nova invasão com o meio de transporte mais moderno da época - o comboio.
Para utilizarmos os benefícios da carga ferroviária em termos europeus, temos pois que construir nova via férrea compatível com as restantes da Europa e, a construir, não vamos construir uma via para o passado, mas para o futuro - os comboios muito rápidos. O TGV.
É esta a justificação que encontro, e defendo, para a construção do TGV. Claro que defender o TGV de passageiros para permitir a um senhor gastar menos meia hora de Lisboa ao Porto é um disparate como justificar a construção de uma auto-estrada para uns senhores "esticarem" o Ferrari.
Defendo, sim, a construção de uma linha TGV (não confundir com comboio de passageiros), que permita a nossa ligação à Europa em termos de transportes ferroviários de carga muito rápidos, que compitam com vantagens com a camionagem, podendo a linha ser também utilizada por outros comboios de várias gamas de velocidade.
De outro modo, ficaremos sempre emparedados em termos de desenvolvimento.

domingo, 8 de julho de 2007

A maravilha das maravilhas

Depois de assistir ao extraordinário espectáculo das 7 maravilhas, dos raros momentos de cultura que podemos partilhar, não posso deixar de exprimir o que senti ao assistir à actuação daquele grupo de percussões.
Era o lado bom da globalização! Gente de todo o mundo a tocar em conjunto sem desafinar e sem "estrelas".
Afinal, é possível andarmos lado a lado, ombro a ombro, como bons amigos!
Certamente, no pricípio, era assim...
Depois, apareceram os interesses, a soberba, os políticos...
Não tenho dúvidas de que, à mesma hora, quiçá a poucos metros, alguém conspirava para mais uma guerrezita em que vendesse armas, outros na forma de abrir mais um corredor da droga, outros em dar um golpe de bolsa para ganhar milhões. Também não é absurda a hipótese de tudo ao mesmo tempo....
Outro aspecto que nos dá que pensar e deixa os defensores da "supremacia da raça caucasiana" da cara à banda, o que me dá grande gozo, é o facto de, das 7 maravilhas eleitas, só uma se situar na Europa, e mesmo assim, no Sul. As outras, todas construídas antes da chegada dos "caucasianos".
Então os outros não eram selvagens a que os "caucasianos" foram fazer o favor de dar civilização?
O meu agradecimento aos organizadores e a minha homenagem aos Maias, aos Aztecas, aos Incas, aos Chineses, aos Indianos, aos Jordanos e aos Romanos, que não tinham preconceitos raciais.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Parabéns à Câmara da Figueira da Foz

Não estranhem. Depois de ler a notícia
http://jn.sapo.pt/2007/07/06/pais/mar_acessivel_a_todos_praia_buarcos.html,
temos de valorizar o que está correcto.
Disponibilizar um equipamento que proporcione aos deficientes motores o prazer de um banho de mar a que todos os outros têm direito é um acto que deve ter o aplauso de todos.
Esperemos que outras câmaras de localidades que têm praia imitem o gesto. Copiar o que está bem não é plágio; é inteligência.
Já agora, deixo uma dica.
Por que não os passeios para deficientes visuais? Vi isto em Taiwan e fiz parte da equipa que aplicou em Macau.
Trata-se de deixar nos passeios uma faixa com pavimento diferente, detectável pela bengala do invisual, que o vai guiando até à passadeira mais próxima, de preferência com semáforos sonoros. Não custa mais um cêntimo que um passeio normal e é muito útil.
Claro que esta faixa tem de estar livre de obstáculos (automóveis, bancas de venda, etc.). Implica ainda que os passeios tenham uma largura aceitável.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A vergonha das juntas médicas

Hoje, cerca das 11H30, quando ouvia um forum da Antena 1 sobre juntas médicas, a propósito do recente caso dos professores doentes de cancro que tiveram de trabalhar até à morte, ouvi declarações do sr. Bastonário da Ordem dos Médicos, que me deixaram estupefacto. Dizia o sr. dr, que as juntas médicas da Caixa Geral de Aposentações (CGA) são constituídas por médicos e um funcionário administrativo, cuja decisão é determinante em função da oportunidade financeira, para a Caixa, da aposentação e que não é necessária a presença do doente, uma vez que os médicos só avaliam os relatórios que lhes metem na mão, não interessando o estado real do doente.
Se me dissessem que isto se tinha passado na Coreia do Norte, na Roménia do sr. Ceausescu ou na Albânia do sr. Enver Oxa, não me tinha admirado muito.
Como acontece, em 2007, no país que está todo ufano porque preside à União Europeia, fico INDIGNADO e ENVERGONHADO!
Então os srs. drs. médicos assinam por baixo uma decisão "médica" de um administrativo?
Então um senhor que não é médico tem legalmente de estar presente num acto médico? E a privacidade do doente?
Onde estão a ética e a deontologia médicas? Só servem para defender privilégios e horas extraordinárias nas urgências?
E a tão zelosa Ordem dos Médicos ainda não proibiu os profissionais de entrar nesta palhaçada, porquê?
Diz o sr. bastonário que vão fazer formação específica para médicos das juntas. Não me digam que é mais uma especialidade, com internato e tudo....
O governo, lava as mãos do problema, dizendo que é um assunto interno da CGA. E de quem é a tutela da CGA? Do sr. Pinto da Costa? Já agora, aproveitem...
Escusam as carpideiras políticas do costume de vir agora mostrar a sua indignação, porque todos os partidos parlamentares, excepto o Bloco de Esquerda, já estiveram no governo e, portanto, são coniventes na situação.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Desfibrilhadores

Nos dias seguintes ao infeliz falecimento do inditoso Feher toda a gente falava e opinava sobre desfibrilhadores, mesmo aqueles para quem a palavra era totalmente nova.
Eram os clubes que deviam ter, os bombeiros que deviam ter, e até havia quem opinasse que se deveria ter um em casa para qualquer eventualidade.
Enfim, apareceu do desfibrilhador a ideia, que ainda perdura em alguns, de que se trata de um aparelho milagroso que livra as pessoas de morrer.
Par desfazer tal ideia e demonstrar que se trata de um equipamento extremamente perigoso, que não deve andar nas mãos de qualquer um, vamos ver como funciona.
As contracções cardíacas, que ocasionam o funcionamento do coração, são provocadas por um impulso eléctrico gerado pelo próprio coração, com determinado ritmo, gerando uma onda eléctrica que pode ser vista nos electrocardiogramas e nos monitores cardíacos. Para os menos versados nestas coisas, é aquela linha mais ou menos em dente de serra que se vê naqueles aparelhos que aparecem junto às camas nos filmes que metem hospitais.
Quando os batimentos deixam de ter um ritmo certo, temos uma arritmia, que às vezes só se resolve com intervenção do desfibrilhador.
O desfibrilhador dá um choque de cerca de 2.000 Volts no coração, provocando, por vezes, que este retome o seu ritmo normal. É uma espécie de "reset".
Também nos casos de paragem cardíaca, por vezes e se actuado a tempo, se pode conseguir que o coração volte a trabalhar.
Para isto, o aparelho tem dois modos de funcionamento: síncrono e assíncrono.
No modo síncrono, utilizado quando existe onda cardíaca, dá-se ordem de disparo e o aparelho só dispara de facto quando a onda cardíaca está no máximo (ponto R). No método assíncrono, utilizado quando não há onda cardíaca, o aparelho dispara logo que se dá a ordem.
Aqui é que reside o perigo. É que, se houver disparo fora do ponto R, podemos com muita probabilidade matar o doente. Infelizmente, não são casos tão raros como seria desejável.
Acresce saber-se que muito poucos médicos e enfermeiros sabem utilizar este equipamento. Sabem especialmente os anestesistas, cardiologistas e emergencistas (INEM).
Está explicada a razão porque no post anterior não me mostrei favorável à existência destes equipamentos nos SAP. Se nem um simples electrocardiógrafo têm!
Há pouco tempo surgiram no mercado equipamentos totalmente automáticos, que tomam as decisões pelo Homem. Parece que estes são mais seguros.
Por outro lado, são equipamentos que requerem manutenção cuidada e especializada.
Por exemplo, sei de clubes de futebol que, dentro da onda, têm um desfibrilhador muito arrumadinho num armário. Como para funcionar necessita das baterias carregadas, o que leva várias horas, o mais certo é que não funcione quando for necessário. Portanto, é inútil. E custa mais de 10.000 €!